Oito soluções radicais para a escassez de água

Publicado em 23.04.2012

A partir da chamada “proibição de mangueiras” (“hosepipe ban”, na expressão inglesa), cresce a preocupação com as secas em diversas partes do leste e do sudeste do Reino Unido.

Desde o dia 5 de abril, sete companhias de água já impuseram restrições, devido aos dois invernos secos anteriores, que deixaram os níveis de reservatórios, aquíferos e rios bem abaixo do normal.

A proibição impede o uso de mangueiras em jardins, carros ou barcos para “usos recreativos”, para encher piscinas ou fontes, e para limpar calçadas, paredes ou janelas. Quem ousar desafiar a lei pode acabar sendo processado, além de levar uma multa de mil libras, o equivalente a R$ 2.600.

E se o tempo seco continuar essa primavera (no hemisfério norte), a seca pode se espalhar para os estados do norte e do oeste, segundo relatório da Agência Ambiental do Reino Unido, que faz parte do Ministério para Meio-ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais da Grã-Bretanha.

Devido a esses fatores, às lembranças do ano amargo de 1976, quando houve racionamento geral, e ao crescimento populacional – segundo o governo da ilha, sua população vai crescer em 10 milhões nos próximos 18 anos –, como se prevenir de uma crise de água? Existem oito soluções radicais, de acordo com os especialistas. Confira:

1 – Gastar bilhões em reservatórios

Uma maneira de evitar as secas é ter mais água armazenada, o que significa mais reservatórios. As companhias de água sempre desejaram construir mais reservatórios, mas permissão das autoridades nunca foi concedida, já que o governo, em contra partida, queria que as companhias reduzissem os vazamentos.

Mas agora o governo parece estar decidido a voltar atrás. Contudo, reservatórios levam um longo tempo para serem planejados e construídos, além de serem caros.

Segundo Colin Green, da Universidade de Middlesex, parte do problema dos reservatórios é que eles são um grande investimento, e é difícil prever como as coisas vão estar em 40 anos. “Vários reservatórios foram construídos nos anos de 1960, na expectativa de que haveria um crescimento industrial no consumo de água. Mas isso não aconteceu”, explica Green.

2 – Água salgada

Para uma ilha como a Grã-Bretanha, uma solução possível é óbvia: a dessalinização. Esse processo consiste em converter a água salgada em água potável.

A primeira planta de dessalinização em Londres é de 2010. Ela pode abastecer com água 400 mil casas ou 1 milhão de pessoas. Mas a planta só opera em períodos de seca, devido aos custos, de acordo com Green.

Segundo o diretor administrativo da Waterwise, companhia que visa diminuir o consumo de água, mais plantas poderiam ser instaladas nas costas do país, mas os custos e o impacto da emissão de CO2 seriam imensos.

E haveria mais um problema: mesmo depois da água purificada, o que fariam com o sal residual? A WWF indica que dessalinização em grande escala também pode pôr em arrisco a vida marinha.

3 – Água do esgoto

A ideia pode não ser tão agradável quanto transformar água do mar ou construir canais, mas a água de esgoto se torna perfeita para ser consumida depois de tratamento.

Na realidade, isso já é feito em quase todo o mundo, mas a percepção pública parece ser amplamente contra a ideia, segundo Adrian McDonald, da Universidade de Leeds, na Inglaterra.

“Existe uma preocupação filosófica e psicológica, ao mesmo tempo, em que as pessoas não gostam de utilizar água proveniente de toilets alheios, não importa o quanto a ciência diga que está perfeitamente pura para o consumo”, McDonald explica.

E o custo de purificação dessa água apresenta outro desafio, segundo ele. “Podemos fazer isso, como fazem em Cingapura, mas os preços da energia elétrica só tendem a subir, deixando os custos do processo ainda maiores”, pontua o cientista da Universidade de Leeds.

4 – Use menos água

Os britânicos usam muito mais água que alguns de seus vizinhos europeus. Cada cidadão utiliza, em média, 150 litros por dia, enquanto que um alemão e um francês usam 125 e 110 litros por dia, respectivamente.

Pequenas ações, como fechar a torneira enquanto escovar os dentes, podem economizar muita água, já que, a cada minuto, uma torneira gasta 6 litros de água, em média. Segundo especialistas, se uma pessoa escovar seus dentes duas vezes por dia, durante dois minutos, são 24 litros de água utilizados. Se todos diminuíssem dois minutos de seus banhos, em um dia eles poupariam água suficiente para encher 373 piscinas olímpicas.

De acordo com o governo, administrar melhor a água e poupá-la já resolve em um terço o problema.

5 – Hidrômetros compulsórios e aumento nos preços

Os proponentes dessas medidas afirmam que utilizar hidrômetros parece ser a forma mais justa de cobrar pelo uso da água, além de poder reduzir o uso de 150 litros para 130, por dia, para cada pessoa, até 2030, segundo estatísticas oficiais do governo britânico.

Apenas as casas construídas desde 1990 têm hidrômetros, e, em 2008, somente um terço das casas da Inglaterra e do País de Gales receberam tais aparelhos.

Mas cobrar de acordo com o uso real nem sempre tem o efeito desejado, de acordo com o especialista em assuntos relacionados à água Christopher Spray, do Centro da Unesco, localizado na Universidade de Ulster, na Irlanda do Norte.

“A suposição de que, se medirmos o uso de água, as pessoas irão usar menos, nem sempre se transforma em realidade”, explica Spray. “Ironicamente, a resposta dessas pessoas pode ser: ‘Bem, estou pagando, tenho dinheiro e por isso vou usar o quanto quiser’”.

E aumentar os preços pode ser a saída, então, mas é sempre uma decisão política difícil, visto que seu uso doméstico é um direito humano básico.

6 – Fazer as companhias consertarem seus vazamentos

É bem documentado o fato de que milhões de litros de água são perdidos todos os dias, devido a vazamentos nos encanamentos e nas instalações das companhias responsáveis pela administração da água.

Entre 2009 e 2010, por exemplo, essas companhias na Inglaterra e no País de Gales desperdiçaram aproximadamente 3,28 bilhões de litros todos os dias, de acordo com a empresa reguladora Ofwat. Apesar disso, esses níveis de desperdício têm baixado desde 1990.

Mas, segundo Spray, existe um benefício em todo esse problema. “Muitas árvores dos centros urbanos já estariam mortas se os encanamentos estivessem perfeitamente selados”, ressalta.

7 – Dutos percorrendo a Grã-Bretanha

Para alguns especialistas, a resposta ainda reside na construção de dutos, que levem água do norte – região com maior precipitação – para o sudeste.

Ano passado, inclusive, o prefeito de Londres, Boris Johnson, quis reviver planos de construir um duto das fronteiras escocesas até o sudeste da Inglaterra. “Já que a Escócia e o País de Gales estão acima da Inglaterra, é hora de fazer o óbvio. Deve-se usar o princípio da gravidade para trazer água da chuva das montanhas para cá”, afirmou o prefeito ao The Telegraph.

Foi então feito um relatório pela Agência Ambiental, que comprovou que a transferência de água em larga escala não é necessária, já que o custo é alto demais.

A proposta mais radical seria interligar cinco dutos paralelos entre o norte da ilha e Londres, mas isso seria oito vezes mais caro que construir mais infraestrutura no sudeste da ilha. Segundo McDonald, a verdade é que as pessoas estão no sudeste e os recursos aquíferos estão no norte.

8 – Relocar a população

Quando o governo prevê que a população crescerá para 73,2 milhões até 2035, dois terços têm relação direta ou indireta com a migração. E toda a pressão sobre esse assunto representa um bom argumento para reduzir significantemente a imigração, conforme diz Sir Andrew Green, de um grupo que supervisiona as taxas de migração, chamado de Migrationwatch (Observatório da migração).

Uma alternativa seria encorajar pessoas do sudeste a se mudar para o norte, região menos suscetível a secas.[BBC, Foto]

Autor: Luan Galani

é jornalista. Entusiasta da Teoria-M, é um rato de biblioteca apaixonado pelo que a ciência pode nos proporcionar. Nas horas vagas, é um amante inveterado de música erudita, que pede perdão aos russos por ainda considerar Mozart a grande lenda.

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7 Comentários

  1. achei interessantes as soluções de Clem. O único reparo é o último parágrafo que se refere ao capitalismo. Misturar ideologia com técnica nunca rendeu bons frutos.

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  2. Ao ler este post não pude deixar de lembrar de Leonardo Di Caprio; o rapaz anda reduzindo drasticamente seus banhos e o uso de desodorante… tudo em nome da redução do consumo de água e salvação do planeta.

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  3. Devíamos nos basear em soluções práticas viáveis.
    A melhor forma para se transformar uma região desértica em ecologicamente viável é através da maciça plantação de árvores nativas, principalmente em áreas críticas, o que seria ótimo também para evitar os danos causados pelas enchentes.
    Tornar nossos meios de consumo ecologicamente viável é outro aspecto urgente para se por em prática, por exemplo transformando sacos de plástico em óleo diesel, ou melhor ainda usando a tecnologia dos biopolímeros.
    Todas estas questões esbarram na estupidez governamental característica de países capitalistas com hábitos imediatistas,exploradores e corruptos

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  4. Concordo com JLKLEIN, mas outras medidas deveriam ser colocadas; por exemplo, premiar pessoas no Imposto de Renda que tivessem o menor número de filhos, ao invéz de premiar com salário família, bolsa auxílio, etc. Fornecer de graça vasectomia, e outras espécies de esterelização tanto masculina quanto feminina,premiar quem aceita fazer estes procedimentos.
    Triplicar o prêço da água, acabar com sacolas plásticas, embalagens pet, fraldas descartáveis, filtro de cigarro.
    Bem , naturalmente, não vou desfilar a lista de produtos
    nocivos ao meio ambiente.
    Se hoje parássemos de emitir todos os produtos tóxicos que contaminam o meio ambiente e diminuem a camada de ozônio, o planeta levaria 100 anos para se recuperar.
    Por isso ou se radicaliza, ou deixamos prá lá e vamos procurar outro planêta para destruir.

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  5. Com certeza temos que frear a explosão demografica, se quisermos, alcançar os anos 2050.o que deve acabar com o mundo é com certeza a fome e miseria por escesso de gente e também animais, como ratos e cães.

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  6. É isso mesmo, Wesley Leandro. Temos que reduzir a população. Quem tem mais de 70 anos sabe que estes problemas não existiam e a tendencia é piorar.

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  7. è bem mais facil reduzir nossa população

    mas a porcaria do atual sistema capitalista não deixa né….

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