O que acontece no corpo de uma mulher que toma a pílula do aborto

A discussão sobre a legalização do aborto no Brasil ainda está longe de chegar a um fim. Enquanto isso, mulheres que podem pagar mais pelo procedimento conseguem fazê-lo com alguma segurança em clínicas clandestinas ou fora do país. Quem não pode, precisa recorrer a clínicas sem o mínimo de segurança, ou até mesmo a realizar o procedimento por conta própria, através da medicação que é dada às mulheres que querem praticar o aborto em países onde ele é legal, como nos EUA.

Sim, nós precisamos falar sobre aborto

Essas pílulas são proibidas no Brasil – à exceção da venda para hospitais. O misoprostol, um dos medicamentos, é usado também para induzir o parto em mulheres com dificuldades para ter dilatação e também para expulsar fetos presos no útero após abortos naturais. Desde 1998, a comercialização para o público em geral é proibida no Brasil. Há permissão exclusivamente para uso hospitalar.

A ciência por trás

Embora seja usado por muitas clínicas de aborto, o nome “pílula do aborto”, como ficou famoso, é um pouco enganador. As clínicas médicas na verdade administram dois tipos diferentes de medicação: uma pílula de mifepristona e quatro comprimidos de misoprostol.

A primeira dose – uma pílula de 200 mg de mifepristona – inicia o processo ao bloquear a progesterona do corpo, um hormônio que é necessário para continuar a gravidez em seus estágios iniciais. “Sempre que uma mulher tem uma menstruação, parte do que estimula isso é a retirada da progesterona”, diz a Dra. Lauren Thaxton, obstetra-ginecologista em Albuquerque, no Novo México, EUA, que vem realizando abortos há seis anos

Ao bloquear este hormônio, a primeira pílula ajuda a quebrar o revestimento uterino que uma mulher normalmente libera durante a menstruação, de modo que o embrião pode se separar da parede uterina. Depois que isso acontece (geralmente um a dois dias depois de tomar a primeira pílula de mifepristona), a mulher deve dissolver quatro comprimidos de misoprostol de 200 mcg na boca. Este segundo medicamento, que também é usado para induzir o trabalho de parto, ajuda a expulsar o embrião liberado.

O Misoprostol “está em uma classe de medicamentos chamados prostaglandinas”, diz o obstetra-ginecologista Dr. Daniel Grossman, co-autor de um artigo recente que explora a possibilidade de se lidar com a medicação de aborto precoce abertamente. “Um dos efeitos das prostaglandinas é que eles causam o que se denomina amadurecimento cervical – o que significa que o colo do útero amacia, abre-se e tornar-se mais fino. E também faz com que o útero se contraia”.

Histórico

O Misoprostol foi desenvolvido pela primeira vez nos EUA em 1973 para tratar as úlceras pépticas, o que ocorreu ao prevenir secreções gástricas ásperas. Mas sabia-se que ele causava grandes efeitos colaterais sobre um útero grávido. Na década de 1980, pesquisadores franceses desenvolveram a mifepristona, também conhecida como RU-486, uma pílula que poderia ser tomada em sequência com o misoprostol para induzir um aborto. A França legalizou esse tratamento em 1988, e a China, a Grã-Bretanha e a Suécia seguiram o exemplo.

Não, a ciência não pode dizer quando é o começo da vida

Nos Estados Unidos, os ativistas dos direitos reprodutivos esperavam que o método fosse adotado nos anos 90, mas os ativistas anti-aborto ajudaram a atrasar sua aprovação até 2000. Quando a medicação de aborto foi pela primeira vez legalizada dos EUA, ela estava disponível até sete semanas após a gravidez. As mulheres que a receberam tiveram que visitar uma clínica três vezes – uma vez para tomar a mifepristona, uma segunda vez para levar o misoprostol e uma terceira vez para um acompanhamento.

Em 2016, o período de gravidez foi prolongado para até 10 semanas e o número de visitas necessárias foi reduzido para duas, o que significa que as mulheres americanas agora podem tomar o misoprostol em casa (embora alguns estados americanos tenham restringido isso também). Hoje, existem até clínicas que visam desestimular o processo, oferecendo uma “experiência semelhante a um spa”, como um centro de saúde Maryland Carafem que oferece chá quente e vestes para mulheres que buscam abortos médicos.

Uma a duas semanas depois de tomar a medicação, a mulher retorna à clínica para garantir que a gravidez tenha passado. Quando tomadas entre nove e dez semanas de uma gravidez, a mifepristona e o misoprostol são 93% efetivos na indução de um aborto. Quanto mais cedo forem tomados, mais eficazes são.

Em 2014, quase metade dos abortos clínicos e hospitalares americanos realizados antes de nove semanas foram abortos medicamentosos, segundo estimativas do Instituto Guttmacher, uma organização de pesquisa e política para direitos reprodutivos.

Riscos e precauções

Cara Harshman, escritora e comerciante autônoma em São Francisco, nos EUA, teve seu aborto (legal) feito com medicamentos em janeiro. Em uma entrevista, ela disse que seus sintomas de cãibras, sangramento e náuseas duraram cerca de cinco dias após ter tomado o misoprostol. No momento em que ela teve sua consulta de acompanhamento, ela ficou estável e se sentiu saudável. Ela escreveu sobre sua experiência no grupo Facebook Pantsuit Nation em um ensaio que ela então republicou na Medium e na publicação Shout Your Abortion.

O único problema de saúde que surgiu durante o aborto de Harshman foi um exame de sangue mostrando que ela era Rh negativo, um tipo de sangue raro, o que significa que ela teve que receber uma dose da medicação RhoGAM depois de tomar o misoprostol. De acordo com Thaxton, a maioria das mulheres é Rh positiva. Mas se uma mulher é Rh negativo, está grávida e com sangramento, ela precisa receber RhoGAM “para prevenir a aloimunização em gravidezes futuras, o que é uma condição em que a mãe desenvolve uma resposta imune aos glóbulos vermelhos do feto”, explica Thaxton.

“Em geral [um aborto medicamentoso] é extremamente seguro”, diz Thaxton, que também é membro da Physicians for Reproductive Health. Os sintomas comuns incluem náuseas, cãibras e sangramento intenso, semelhante ao que as mulheres experimentam durante um aborto espontâneo. Thaxton geralmente diz a suas pacientes que se elas ensoparem quatro absorventes em duas horas, então estão sangrando muito e devem consultar seu médico. “Existe um risco raro de [muito] sangramento – às vezes sangramento que requer uma transfusão de sangue – e isso pode estar relacionado ao risco de a gravidez passar de forma incompleta”, diz ela.

Sobre o aborto: 99% das mulheres não se arrependem

Para evitar isso, médicos onde o aborto é liberado aconselham as mulheres que têm uma história de distúrbios hemorrágicos antes de prescrever este método. Há também um pequeno risco de infecções como a endometrite (inflamação do revestimento uterino) ou a contração da bactéria Clostridium Sordellii, ambas também podem ocorrer após o parto. No entanto, Thaxton afirma que as ocorrências de infecções após abortos medicamentosos são “extremamente, extremamente raras”.

“As mulheres são sempre examinadas para condições de saúde que podem fazer um aborto cirúrgico uma opção mais segura do que a pílula do aborto”, diz. “Mas, para a grande maioria das mulheres, a pílula do aborto é uma maneira segura, privada e eficaz de ter um aborto”.

Pesquisas descobriram que uma maior quantidade de misoprostol é necessária para induzir um aborto por conta própria, e geralmente é menos eficaz do que o método combinado com a mifepristona. Durante as primeiras 12 semanas de gravidez, uma mulher que toma três doses de 800 mcg de misoprostol por via oral com pelo menos três horas de intervalo tem 85% de chance de ter um aborto completo, de acordo com um estudo de 2007 publicado no International Journal of Gynecology and Obstetrics.

No entanto, alguns estudos sugerem que induzir um aborto usando misoprostol sozinho não é menos seguro do que o método combinado. A Organização Mundial da Saúde recomenda misoprostol como uma alternativa segura quando a mifepristona não está disponível, e Grossman diz que usaria o método usando apenas misoprostol se não tivesse acesso a mifepristona.

Será seguro?

Mas considerando estes riscos, será que seria seguro usar a pílula do aborto sem acompanhamento médico, caso ela fosse permitida, como o estudo de Grossman explorou?

Em uma recente opinião publicado no jornal The Guardian, ele escreve que uma pesquisa limitada sugere que as mulheres que tomam medicação para o aborto por conta própria estão fazendo isso de forma segura, acrescentando que “não há dúvida de que o uso desses medicamentos contribuiu para uma redução da mortalidade relacionada ao aborto em todo o mundo”.

A medicação contra o aborto, ele argumenta, poderia um dia atender aos requisitos da agência reguladora nos EUA, a FDA, para medicamentos sem receita médica. Na verdade, o grupo de pesquisa Gynuity Health Projects já está conduzindo um projeto de pesquisa aprovado pela FDA chamado TelAbortion, para testar a segurança das mulheres usando medicação por correspondência e consultas on-line para realizar seus abortos em casa.

Aborto é mais seguro do que dar a luz

Por outro lado, em entrevista ao portal G1 em 2009, quando uma venda ilegal de medicamentos abortivos foi descoberta pela polícia, a ginecologista Carolina Ambrogini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), condenou o uso do misoprostol sem a supervisão médica. “A pessoa aborta, sangra, tem descolamento da placenta de moderado a intenso. Se utilizar em ambiente que não é o hospitalar – e muitas vezes fazem isso escondido –, pode não ter como ser socorrida”, alerta.

É claro que pesquisas futuras serão necessárias para testar essas hipóteses. Mas mesmo que a segurança da medicação tomada em casa seja confirmada, se a história nos ensina qualquer coisa, é que os esforços para tornar o aborto mais acessível serão combatidos arduamente. [Smithsonian Magazine]

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