10 cientistas machões que foram suas próprias cobaias

Por , em 5.12.2014

Inovação é algo que geralmente sai caro. Não podemos esperar avanço sem sacrifício. A boa notícia é que sempre houveram pessoas dispostas a pagar o preço pelo progresso de toda a humanidade, como esses dez cientistas que foram seus próprios porquinhos-da-índia:

10. John Scott Haldane

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O escocês John Scott Haldane estudou extensamente a fisiologia da respiração. Ele descobriu os efeitos que vários gases perigosos tinham sobre o corpo e a mente, muitas vezes experimentando em si mesmo (ou até em seu filho). Um desses casos ocorreu em 1893, quando ele se trancou em uma caixa hermética e permaneceu dentro dela durante oito horas, respirando o mesmo ar, para anotar os efeitos que isso tinha sobre ele. Haldane concluiu que a desoxigenação do sangue aumenta a sua capacidade de transportar dióxido de carbono, uma propriedade conhecida hoje como “Efeito Haldane”.

Mais tarde, investigou gases perigosos em minas. Ele usou pequenos animais e descobriu que o mais letal era o monóxido de carbono. Só para ter certeza, também se envenenou com o gás em uma câmara fechada, para ver se os efeitos eram os esperados. Eventualmente, teve a ideia de usar animais pequenos (canários, em particular) como detectores de gás, uma vez que seus corpos eram afetados muito mais rapidamente.

Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, os alemães começaram a usar um gás venenoso como arma. Haldane foi trazido para a linha de frente da batalha para identificar o gás em questão (cloro) e encontrar uma solução. Mais uma vez, seu próprio corpo foi usado para as experiências, e seus esforços levaram ao desenvolvimento da primeira máscara de gás.

9. David Pritchard

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Enquanto trabalhava em Papua Nova Guiné durante o final da década de 1980, o Dr. David Pritchard notou que o parasita Necator americanus, chamado de ancilostomíase, era um problema para a população, mas tinha alguns efeitos colaterais positivos inesperados. Os pacientes infectados eram menos propensos a ter problemas com doenças autoimunes, especialmente asma e febre do feno.

Quando voltou para casa na Universidade de Nottingham (Reino Unido), o médico estava ansioso para testar sua ideia e ver se havia alguma conexão real entre os dois fatores. No entanto, tinha um problema: o parasita era bastante perigoso e responsável, na época, por 65.000 mortes nos trópicos a cada ano, bem como centenas de milhares de casos de anemia. O comitê de ética britânico não lhe permitiria usar cobaias humanas, a menos que soubessem que isso era seguro. Então Pritchard fez a única coisa que podia fazer: usou-se como cobaia. Infectou-se com 50 parasitas para desenvolver uma técnica de teste segura em condições de laboratório, e chegou à conclusão de que os participantes deveriam ser infectados com apenas 10 parasitas para render bons resultados sem colocá-los em perigo. Só em 2006 o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido finalmente permitiu-lhe realizar um estudo com seres humanos.

8. Moran Campbell

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Dr. Moran Campbell foi um líder na pesquisa de problemas respiratórios e inventor do Ventimask, um produto usado ainda hoje. Ele estudou vários aspectos da respiração, mas suas experiências em dispneia são as mais interessantes.

A dispneia é a falta de ar que experimentamos quando nossa respiração é prejudicada. Em determinadas situações, como durante exercício físico intenso, é normal. No entanto, ela também ocorre muitas vezes quando não deveria, e Campbell queria saber exatamente qual a conexão entre a condição e os músculos respiratórios.

Assim, criou um experimento para testar seus próprios músculos respiratórios sob cenários extremos. Para começar, paralisou todo o seu corpo, exceto seu antebraço, usando curare, uma toxina perigosa. Dessa forma, ele não seria capaz de controlar seus movimentos do corpo, mas estaria completamente acordado durante todo o experimento. Depois disso, se ligou a um respirador, uma vez que era incapaz de respirar por conta própria, mas eventualmente o desligou, para saber como seu organismo reagiria a um lento sufocamento. A experiência não foi particularmente útil. Campbell declarou mais tarde que ser paralisado usando curare não era nada parecido com a paralisia através da contração prolongada ou isquêmica.

7. Horace Wells

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Como Campbell notou, nem todos os auto-experimentos têm um resultado positivo. No entanto, as coisas às vezes podem ser ainda piores, como no caso de Horace Wells, dentista que foi um dos primeiros a introduzir o uso de anestesia na odontologia. Especificamente, ele foi pioneiro no uso de óxido nitroso (gás hilariante) como um analgésico durante extrações de dente.
Para testar a eficácia do gás, ele teve um de seus próprios dentes extraídos. O processo revelou-se bastante bem sucedido, e Wells fez várias outras extrações sem complicações. Assim, sentiu que podia mostrar seu dom para o mundo. Marcou uma exibição no Hospital Geral de Massachusetts (EUA), mas o gás não foi administrado corretamente, e seu paciente começou a uivar de dor.

Caído em desgraça, Wells se mudou para a Europa para continuar suas pesquisas. Quando voltou para a América, descobriu que o óxido nitroso havia sido substituído por éter e clorofórmio na anestesia. Então, começou a experimentar com clorofórmio da melhor maneira que sabia: em si mesmo. Infelizmente, naquela época, o efeito da exposição prolongada a clorofórmio não era conhecido. Depois de inalar o gás por uma semana, Wells ficou totalmente louco – chegou até a jogar um recipiente com ácido sulfúrico sobre duas prostitutas. Foi parar na prisão e, mais tarde, quando sua mente finalmente voltou a si, Wells ficou tão abalado com a culpa que cometeu suicídio.

6. Maurizio Montalbini

Maurizio Montalbini
Seres humanos funcionam usando um ritmo circadiano. Somos ativos durante o dia, descansamos à noite. Nosso relógio biológico interno é baseado em um prazo de 24 horas, graças a estímulos externos. Mas o que aconteceria se não existissem esses sinais externos? Essa foi a pergunta feita pelo sociólogo Maurizio Montalbini.

Para respondê-la, ele teve de ficar completamente isolado – passou a viver em uma caverna sozinho por meses. A primeira vez que fez isso foi em dezembro de 1986. Montalbini passou sete meses nas Cavernas de Frasassi, quebrando o recorde mundial de isolamento completo no processo. Ele repetiu essa experiência por mais duas vezes, uma em 1992, por um ano inteiro, e uma em 2006, por 260 dias.

Montalbini mostrou que o corpo humano e a mente mudam muito quando não há fatores externos para oferecer informações sobre a hora do dia ou a passagem do tempo. Primeiro, o tempo passou muito mais rápido para ele. Montalbini sempre achava que tinha passado muito menos tempo nas cavernas do que realmente tinha. Ele perdeu cerca de 14 kg na primeira experiência. Seu corpo se acostumou a ficar acordado por 50 horas de uma vez, e em seguida dormir por apenas cinco.

5. Lazzaro Spallanzani

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Nem todas as experiências precisam ser perigosas, algumas são apenas estranhas ou nojentas, como as de Lazzaro Spallanzani. O biólogo italiano do século 18 estudou uma grande variedade de tópicos, incluindo ecolocalização e biogênese. No entanto, seu trabalho em funções corporais é o que lhe garantiu um lugar nessa lista.

Nós aprendemos muito sobre a digestão graças a Spallanzani. Até sua pesquisa, pensávamos que a digestão era um processo puramente mecânico chamado trituração. Ele nos mostrou que uma reação química estava envolvida. Especificamente, demonstrou o processo realizado pelo suco gástrico no estômago. Ele usou uma variedade de animais para seus experimentos. Para obter amostras de suco gástrico, fazia os animais vomitarem ou empurrava uma esponja amarrada a um cabo goela abaixo nos bichinhos. Para ver os efeitos de sucos gástricos em alimentos em vários estágios, também usou de regurgitação, ou cortou os animais para recuperar o conteúdo de seus estômagos.

Também realizou esses experimentos em um único ser humano: ele mesmo. Spallanzani engolia amostras embrulhadas em sacos de linho ou tubos de madeira e as regurgitava depois de um tempo. Se preciso, engolia a mesma amostra de mais de uma vez. Eca!

4. Jack Barnes

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Cerca de 50 anos atrás, a Austrália não sabia como lidar com surtos de uma condição perigosa chamada de síndrome Irukandji. Ela causa dores de cabeça, náuseas, vômitos e dores abdominais. Se não for tratada, pode até ser fatal.

Mas, para poder tratá-la, primeiro tínhamos que saber o que a causava. O Dr. Jack Barnes teve uma ideia: era uma água-viva muito venenosa. Hoje em dia, sabemos que muitas espécies de água-viva estão entre as criaturas mais mortais do planeta, por isso, as evitamos a todo custo. Mas o Dr. Barnes capturou a água-viva em questão, um pequeno bicho cerca de 2,5 centímetros de diâmetro, e a deixou picá-lo para ver se desenvolvia os sintomas da síndrome Irukandji. Não contente com apenas uma cobaia, também deixou seu filho e um salva-vidas local se picarem, só para ter certeza.

Todos os três ficaram doentes e tiveram que ser levados para o hospital, onde se recuperaram completamente. A pequena água-viva era de fato a culpada, e mais tarde foi nomeada Carukia barnesi em homenagem a Barnes. Hoje, sabemos várias outras espécies de medusas também podem causar a síndrome Irukandji.

3. Donald Unger

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Donald Unger foi uma vez um garoto que, como muitos de nós, foi repetidamente repreendido por sua mãe por estalando os dedos. Ela o avisou que isso iria causar artrite, e ele finalmente encontrou-se em uma posição onde podia colocar essa afirmação à prova. A partir de então, todos os dias, ele estalou os dedos apenas da mão esquerda. Ele queria ver se havia alguma diferença notável entre as duas na conclusão do experimento. A princípio, isso não soa particularmente louco. O que é único, porém, é a duração da experiência: 60 anos.

Depois de seis décadas, quando finalmente pôs fim a seu teste, Unger fez raios-X abrangentes de suas mãos e não encontrou nenhuma diferença significativa entre elas. Estalar os dedos não causa artrite. Por seus esforços, o Dr. Unger foi agraciado com o Prêmio Ig Nobel de Medicina em 2009.

2. Jesse Lazear

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A febre amarela ainda é uma das doenças mais perigosas que afetam a humanidade, mas costumava ser muito pior. Em 1900, um grupo de quatro cientistas da Comissão Reed foi incumbido de estudar a condição. Naquela época, ninguém sabia ao certo o que causava a doença. O consenso geral era que ela era transmitida através do contato direto, mas nem todo mundo estava convencido disso.

Assim, os quatro homens se mudaram para Cuba, um terreno fértil para o vírus, e começaram a trabalhar. Entre eles estava o jovem médico Jesse Lazear, que se especializou em doenças tropicais como febre amarela e malária. Um cientista britânico chamado Sir Ronald Ross tinha acabado de descobrir que a malária era transmitida por mosquitos, por isso Lazear entrou na Comissão bastante certo de que os mosquitos eram responsáveis pela febre amarela também. Ele não foi o primeiro a pensar isso. O cientista cubano Carlos Juan Finlay tinha tido a mesma ideia. No entanto, onde as experiências de Finlay falharam, Lazear teve sucesso. “Prefiro pensar que estou no caminho do verdadeiro germe”, escreveu Lazear para sua esposa. Apenas 17 dias depois, ele estava morto. Isso porque, sem o conhecimento de seus colegas, Lazear se permitiu ser infectado com a febre amarela para estabelecer a ligação entre a condição e os mosquitos. Seu sacrifício não foi em vão, já que seu trabalho foi um passo crucial na busca de um tratamento para a febre amarela.

1. Henry Head

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O Dr. Henry Head foi um neurologista inglês que realizou um trabalho pioneiro no estudo do sistema somatossensorial. Ele se concentrou em particular na nocicepção, que é a sensação de dor. O médico começou usando pacientes em recuperação com dano no nervo como cobaias. No entanto, rapidamente descobriu que a falta de conhecimento médico das pessoas impedia que elas dessem as respostas precisas e objetivas que ele precisava. Então, encontrou um melhor sujeito para teste: si mesmo.

Como ele não tinha qualquer dano em nervos para observar, fez uma cirurgia para cortar dois nervos em seu antebraço esquerdo. Em seguida, passou os próximos quatro anos documentando sua recuperação. A cada fim de semana, viajava para a Universidade de Cambridge e era submetido a um exame de seus braços afetados e não afetados para anotar as diferenças. Head cuidadosamente monitorava todas as alterações sensoriais que experimentava. Finalmente, se tornou um dos primeiros médicos a falar sobre dissociação sensorial, especulando sobre a existência de dois sistemas sensoriais diferentes, que ele chamou de sistemas epicrítico e protopático. [Listverse]

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4 comentários

  • Ana Olandim:

    Samuel Hahnemann, pai da Homeopatia, experimentou os medicamentos em si mesmo, em amigos e na sua família, chegando finalmente ao método.

    • Marcelo Ribeiro:

      É a mesma coisa que dar água para os amigos e a família: o único efeito colateral é urinar: Homeopatia: Aprenda a fazer seu próprio remédio

    • Cesar Grossmann:

      Meus pensamentos, Marcelo. O risco que Samuel Hahnemann correu era ZERO. Tem que tomar mais de 10 litros de homeopatia para ser intoxicado.

  • Samuel Alencar:

    Eles arriscaram suas próprias vidas tencionando garantir a veracidade de suas descobertas científicas em prol da humanidade!

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