As Aventuras de Pi – o filme, o livro e o número

Por , em 24.12.2012

Por Mustafá Ali Kanso

Assisti na sexta-feira passada a estreia do intrigante “As aventuras de Pi” do premiado diretor taiwanês Ang Lee e confesso que fiquei surpreso por diversas razões – e algumas delas, obviamente, têm a ver com o Hypesciencie e especificamente com minha coluna hipercrônicas.

Mas, vamos por partes.

Fiquei surpreso inicialmente pela coragem e competência do diretor que reuniu os três pesadelos de qualquer cineasta numa mesma produção: filmagem marítima, de animais e de crianças.

A imprevisibilidade desses motivos faz do “controle de cena” um dos maiores desafios para o mais experimentado dos diretores. Mesmo quando filmados isoladamente.  Agora imagine esses três elementos desestabilizadores combinados em várias cenas.

Lee venceu o desafio  conciliando o talento dos atores, tomadas engenhosas e o uso de massivos e bem aplicados recursos de computação gráfica (que rendeu inclusive indicação a prêmios de animação) transformando o filme numa experiência visual belíssima e convincente.

O FILME

Originalmente intitulado Life of Pi, com roteiro de David Magee baseado no livro homônimo de Yan Martel é uma produção de 127 minutos da Fox e conta com um elenco praticamente desprovido de nomes conhecidos do cinema ocidental.  A única exceção é a de Gerárd Depardieu que, aliás, rouba a única cena em que aparece como cozinheiro do navio – personagem que chama atenção pela magnífica tipificação de Depardieu , que beira o cômico sem ser caricato, sendo um dos elementos chaves na composição do roteiro e cuja contribuição é significativa para o desfecho da trama.

E por falar em trama, tudo é simbólico e alegórico nessa intrigante história, o que possibilita profundas reflexões filosóficas.

Entre essas reflexões podemos citar o principal mote da obra literária que inspirou o filme – o questionamento fundamental sobre a existência humana e o contraponto entre a ciência e a religião. Aliás, um dos temas recorrentes no Hypescience e também outra fonte de surpresas.

Filho de um indiano aparentemente ateu ou no mínimo agnóstico o jovem protagonista de nome Piscine, resolveu adotar o apelido “Pi” (que remete ao número transcendente), para evitar o bullying que seu nome insólito obviamente suscitara.

A primeira parte do filme, bastante descritiva, narra a vida familiar de  Pi e como ele virtualmente cresceu “dentro” de um zoológico administrado pelo pai e seu primeiro encontro com o tigre-de-bengala de nome Richard Parker.

Piscine adota três religiões simultaneamente, hinduísmo, cristianismo e islamismo e quando adulto ministra lições de cabala (judaísmo).

Aparentemente, essa parte da trama pode remeter a um libelo místico-religioso, no entanto, a abordagem dada por Lee, aponta para a liberdade humana primordial: a de crer em único deus, em vários ou em nenhum.

No desenrolar da história o trágico e o surreal se alternam, primeiro num naufrágio, no qual o jovem Piscine perde toda a família e se vê obrigado a compartilhar seu barco salva-vidas com alguns animais, e depois apenas com o tigre Richard Parker. Daí o desenrolar da luta pela sobrevivência na qual são colocados em cheque aspectos medulares das respostas humana às contingências.

O LIVRO

O livro “A vida de PI” (2001) do escritor canadense Yann Martel foi envolvido em uma polêmica desde sua premiação em 2002 com o Booker Prize – um dos prêmios mais importantes da língua inglesa.

Alguns jornais teriam acusado Yann Martel de ter plagiado a novela “Max e os Felinos” publicada pela L&M Pocket em 1981 de autoria do escritor brasileiro Moacyr Scliar (que faleceu em 2010).

A polêmica se reacendeu com o lançamento do filme.

Em ambas as publicações um jovem sobrevivente de um naufrágio, que é protagonista da história, tem de compartilhar um bote salva-vidas com um felino de grande porte (um jaguar no livro de Scliar e um tigre-de-bengala no livro de Martel) e é a partir dessa ideia central que toda a trama é construída suscitando seu diálogo filosófico com o leitor.

Por um lado o escritor canadense agradece a Scliar no prefácio de seu livro pela “centelha de inspiração” e por outro, Scliar, reconhece “que as ideias não são protegidas por direitos autorais” observando que o desenvolvimento a partir da ideia central é totalmente diferente, descartando a possibilidade de qualquer disputa judicial.

Essa história me convida à seguinte reflexão: até que ponto pode ser considerado honesto a referência de uma obra em outra.

Penso, que o único jeito de eu avaliar se houve ou não plágio é ler as duas obras e então tirar as minhas próprias conclusões.

O NÚMERO

O jovem Piscine Molitor Patel resolve adotar o apelido “Pi” (uma homenagem ao número transcendente) como uma forma de evitar o bullying que sofria na escola. E para isso se obrigou, não apenas a explicar o significado do número PI , como também a oferecer nas aulas de matemática uma atração a mais, recitando de memória o número com casas decimais suficientes para lotar as lousas.

O número PI, também denominado constante circular, constante de Arquimedes ou número de Ludolph é uma constante matemática que expressa o quociente entre o perímetro e o diâmetro do círculo.

O Perímetro expressa a medida do contorno de um objeto bidimensional, ou seja, a soma de todos os lados de uma figura geométrica.

Por exemplo, quando medimos o comprimento de um pedaço de corda estamos medindo o perímetro do circulo perfeito que pode ser formado por esse pedaço de corda.  Ao dividirmos essa medida (o perímetro) pelo diâmetro desse círculo, obtemos um número muito próximo de três.  Aproximadamente 3,14.   E isso acontece para círculos de qualquer tamanho.

O número PI com 52 casas seria escrito assim:

3,1415926535897932384626433832795028841971693993751058

Por ser transcendente e irracional o número Pi não possibilita a previsão de suas casas. Para determina-las com precisão só mesmo o cálculo bruto realizado por computação.

A utilização desse número como nome do personagem é também simbólica.  Interpretei como um contraponto entre a constante matemática (símbolo da razão) e as diversas dimensões da religiosidade do personagem. E você leitor como interpretaria?

Simbolismo à parte, foi bem interessante assistir essa explicação do número PI numa superprodução cinematográfica, e por essas e outras, perceber que existe vida inteligente em Hollywood.

Não. Não recebi nenhum cachê para efetuar publicidade para o filme ou para os livros aqui citados. Como sempre, estou convidando o leitor a utilizar as mídias geralmente aplicadas ao entretenimento como forma de enriquecimento cultural. É unir o útil ao agradável.

-o-

[Imagem: Fox Filmes (EUA) – Divulgação]

 

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Navegando entre a literatura fantástica e a ficção especulativa Mustafá Ali Kanso, nesse seu novo livro “A Cor da Tempestade” premia o leitor com contos vigorosos onde o elemento de suspense e os finais surpreendentes concorrem com a linguagem poética repleta de lirismo que, ao mesmo tempo que encanta, comove.

Seus contos “Herdeiros dos Ventos” e “Uma carta para Guinevere” foram, em 2010, tópicos de abordagem literária do tema “Love and its Disorders” no “4th International Congress of Fundamental Psychopathology.”

Foi premiado com o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos da Scarium Megazine (Rio de Janeiro, 2004) pelo conto Propriedade Intelectual e com o sexto lugar pelo conto Singularis Verita.

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7 comentários

  • aLex Keher:

    Acho que o principal no filme é que duas histórias são possíveis e isso não importa se a essência permanecer. A real e a surreal não são antagônicas. Fazemos isso o tempo todo ao contar fatos que nos ocorrera. Perdemos sempre a noção do que é real e daquilo que “enfeita” o cerne da mensagem que queremos transmitir.

  • Silvia Maria Sotangi:

    Assisti o filme em 3D e achei uma produção fantástica, roteiro, paisagens, atores,lugares, o como tudo vai acontecendo…No desenrolar fiz uma conexão com a minha subjetividade e interpreto o nome do PI como o infinito, que é representado pela fé e pelo significado de Deus. Assistiria novamente e certamente com novas “viagens interiores”.
    Gostei muito da leitura que Mustafá escreveu!

  • Elias Melo:

    Parabéns pela matéria, gostei da linguagem aplicada; terei que assistir agora fiquei muito curioso.

    Grato ao HypeScience por matérias e conteúdos muito bem elaborados.

  • Sara:

    Eu assisti ao filme em 3D e achei maravilhoso! As paisagens, a cena do naufrágio e do mar revolto são assustadoras e belas, não tem como falar mais sobre, só assistindo mesmo. Agora estou com vontade de ler o livro, que deve ser até melhor que o filme.

  • Mustafá Ali Kanso:

    Recomendo que assista em 3D. A experiência visual é marcante.

  • Sammael Kazuhiro:

    Vou assistir também. E obrigado por não fazer spoiler. =)

  • Marcelo Ribeiro:

    Agora TENHO que assistir no cinema. Obrigado por evitar os spoilers.

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