A ciência e o budismo concordam: não existe nenhum “você” aí dentro

Por , em 28.09.2015

Evan Thompson, da Universidade de British Columbia, no Canadá, decidiu verificar a crença budista da “anatta”, ou “não eu”. A neurociência tem se interessado pelo budismo desde o final dos anos 1980, quando o Instituto Mente e Vida foi criado pelo Dalai Lama e uma equipe de cientistas. O conhecimento proveniente desses primeiros estudos validou o que os monges já sabiam há anos – se você treinar sua mente, você pode mudar seu cérebro.

A anatta é um conceito um pouco confuso, centrado na ideia de que não há um você consistente. A crença de que somos os mesmos de um momento para o outro, ou de um ano para o outro, é uma ilusão. “O cérebro e o corpo estão constantemente em fluxo. Não há nada que corresponda ao sentido de que há um eu imutável”, afirma Thompson.

Um artigo publicado em julho na revista “Trends in Cognitive Sciences” liga a crença budista de que o nosso eu está sempre mudando a áreas físicas do cérebro. Há evidências de que o “autoprocessamento no cérebro não é instanciado em uma determinada região ou rede, mas se estende a uma ampla gama de flutuação de processos neurais que não parecem ser autoespecíficos”, escrevem os autores.

Thompson, cujo trabalho inclui estudos de ciência cognitiva, fenomenologia e filosofia budista, diz que esta não é a única área em que a neurociência e o budismo convergem. Porém, nem a neurociência nem o budismo têm uma resposta definitiva sobre exatamente como a consciência se relaciona com o cérebro. E os dois campos divergem sobre certos aspectos do tema. Os budistas acreditam que há alguma forma de consciência que não é dependente do corpo físico, enquanto os neurocientistas (e Thompson), discordam.

O pesquisador, no entanto, apoia a opinião dos budistas de que o “eu” de fato existe. “Na neurociência, muitas vezes você se depara com pessoas que dizem que o eu é uma ilusão criada pelo cérebro. Minha opinião é que o cérebro e o corpo trabalham em conjunto no contexto de nosso ambiente físico para criar um senso do eu. E é equivocado dizer que só porque é uma construção, é uma ilusão”, afirma.

Mais desapego e liberdade

É útil assistir a um vídeo de si mesmo do passado, ou ler algo que você escreveu anos atrás. Seus interesses, perspectivas, crenças, conexões, relacionamentos, todos mudaram de alguma forma. Anatta não significa que não existe nenhum você, mas significa apenas que você está em constante mudança e evolução. Por que isso é importante?

Rick Hanson, autor dos livros “Hardwiring Happiness” e “Buddha’s Brain”, argumenta que, quando não há um eu consistente, significa que não temos de levar tudo para o lado pessoal. Isto é, os nossos pensamentos internos são apenas pensamentos e não nos definem. Os eventos externos são apenas os eventos externos e não estão acontecendo conosco pessoalmente. Ou, como diz a professora de budismo e meditação Tara Brach em seu blog pessoal, nossos pensamentos são “reais, mas não são verdadeiros”.

Há uma tremenda libertação em não nos identificarmos com uma ideia estabelecida de quem nós somos. É assim que podemos crescer e mudar, com a ajuda da neuroplasticidade – a capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se e moldar-se a nível estrutural e funcional ao longo do desenvolvimento neuronal e quando sujeito a novas experiências. Assim também há esperança de que possamos superar nossos vícios ou maus hábitos (de mente e corpo), porque se não estamos presos às crenças autolimitantes inerentes a um eu consistente, podemos nos tornarmos quem nós queremos ser, no momento em que queremos.

Enquanto a ciência e o pensamento oriental continuam trocando figurinhas, pode haver mais estudos apoiando pensamentos de 2.600 anos de idade. Mas é preciso manter a cabeça aberta. Como bem lembrou Dalai Lama no livro “Buddhism and Science: Breaking New Ground”, “Suponha que algo está definitivamente comprovado através da investigação científica. Suponhamos que esse fato é incompatível com a teoria budista. Não há dúvida de que devemos aceitar o resultado da pesquisa científica”.

Ouvir uma postura pró-ciência de um líder religioso é um alívio para muitos. No final das contas, parece que o budismo e neurociência têm objetivos semelhantes: descobrir o que é essa coisa que chamamos de mente e como podemos usá-la para nos tornarmos um pouco menos miseráveis e um pouco mais felizes. [Big Think, Quartz]

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8 comentários

  • Jorge Franco:

    Ok.
    Vamos admitir um referencial. Em mim. No Outro. No Mundo. No Infinito. O que muda de um para o outro? Isto é Teoria da Relatividade?

  • Jarbas Paranhos:

    Depende do que vc chama de “eu”! Um eu estático obviamente não existe. Tudo flui e evolui. Gosto mais do conceito de Wu Wei do taoismo, que diz que o eu se desfaz ou se dilui, quando entra em sincronicidade com o Tao, ou fluxo cósmico. É um conceito mais dinâmico. Lembra o conceito moderno de Flow.

  • Claudiomar Santos:

    Tanto que determinamos fazer uma coisa e fazemos outra … O eu real é resultado de tudo que conseguiu passar, desde muito …

  • Claudiomar Santos:

    … 60 anos de convivência comigo mesmo … O nosso “eu”, aquele que julgamos ser, é apenas a ponta do iceberg… Isto claramente …

  • Claudiomar Santos:

    Nem deveria comentar já que, segundo o texto, já não sou o mesmo que leu 🙂 … Óbvio que vou expressar apenas minha opinião…

  • Eduardo Tahara:

    (sou budista) um exemplo.se vc procura seu eu interno,quem está procurando? ou seja o conceito não tem nada a ver com cérebro

  • Cesar Grossmann:

    Será o fim do platonismo?

    • Guilherme Euripedes:

      Creio que não, afinal, supostas verdades imutáveis não surgem somente da mente humana, mas são “naturais”.

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