Adivinha a cara que você faz que é uma expressão universal da linguagem

Por , em 29.03.2016

Pesquisadores identificaram uma expressão facial universal que é interpretada em muitas culturas como a personificação da emoção negativa.

No estudo, a expressão foi idêntica para falantes nativos de inglês, espanhol, mandarim e linguagem de sinais americana.

Constituída por uma testa franzida, lábios apertados e queixo levantado, é usada para transmitir sentimentos negativos, como “eu não concordo”, de forma que os pesquisadores decidiram chamá-la de “cara de não”.

Combinação de três expressões

“De onde vem a linguagem? Esta é uma pergunta que a comunidade científica tem feito por muito tempo. Este estudo sugere fortemente uma ligação entre linguagem e expressões faciais de emoção”, disse Aleix Martinez, cientista cognitivo e professor de engenharia elétrica e informática na Universidade Estadual de Ohio, nos EUA.

Anteriormente, Martinez e sua equipe usaram algoritmos de computador para identificar 21 diferentes expressões emocionais – incluindo as complexas que são combinações de emoções mais básicas.

Para o novo estudo, os pesquisadores teorizaram que, se uma cara de não universal existisse, provavelmente seria uma combinação de três expressões faciais básicas que são universalmente aceitas para indicar desacordo moral: raiva, nojo e desprezo.

Por que o foco em expressões negativas? Charles Darwin acreditava que a capacidade de comunicar perigo ou agressão era uma das chaves para a sobrevivência humana muito antes de nós desenvolvermos a capacidade de falar. Assim, os pesquisadores suspeitavam que, se existia qualquer expressão facial realmente universal de emoção, a de reprovação ou discordância seria a mais fácil de identificar.

A “cara de não” que vai junto com o não

Para testar essa hipótese, 158 estudantes foram colocados em frente a uma câmera digital. Eles foram filmados e fotografados enquanto tinham uma conversa casual com uma pessoa por trás da câmera em sua língua nativa.

Os estudantes pertenciam a quatro grupos, que foram escolhidos para representar uma grande variedade de estruturas gramaticais: inglês é uma língua germânica, enquanto o espanhol é baseado em latim (como o português); mandarim é uma forma moderna de chinês oriental formalizada no início do século 20. Como outras formas de linguagem gestual, a linguagem de sinais americana combina gestos, movimentos da cabeça e de corpo e expressões faciais para comunicar palavras ou frases.

Os cientistas estavam à procura de um “marcador gramatical facial”, uma expressão facial que determinaria a função gramatical de uma frase. Por exemplo, na frase “Eu não vou para a festa”, o “não” é um marcador gramatical de negação. Sem ele, o significado da frase muda completamente: “Eu vou para a festa”.

Se o marcador gramatical facial de negação fosse universal, todos os participantes do estudo fariam expressões faciais semelhantes ao utilizá-lo, independentemente de em qual linguagem estivessem falando. Em outras palavras, todos deveriam fazer a mesma “cara de não”.

Resultados

Os estudantes ou memorizaram e recitaram frases negativas que os pesquisadores tinham escrito, ou tiveram que responder questões que eram suscetíveis de criar desacordo, como “Um estudo mostra que o preço da mensalidade da universidade deve aumentar 30%. O que você acha?”.

Em todos os quatro grupos – falantes de inglês, espanhol, mandarim e linguagem de sinais -, os pesquisadores identificaram marcadores gramaticais claros de negação. As respostas dos estudantes eram declarações do tipo “Isso não é uma boa ideia”, e “Eles não devem fazer isso”.

Os pesquisadores registraram manualmente as expressões dos estudantes, quadro a quadro, para identificar que músculos faciais estavam se movendo e em que direções. Em seguida, algoritmos de computador procuraram pontos em comum.

A “cara de não” surgiu: as sobrancelhas franzidas de “raiva” combinadas com o queixo erguido de “repugnância” e os lábios pressionados de “desprezo”. Independentemente da linguagem, os rostos dos participantes exibiram estes mesmos três movimentos musculares quando eles comunicavam frases negativas.

Frequência universal

A análise de computador também comparou o tempo em que os músculos faciais dos alunos mudaram.

Eis o porquê: a fala humana varia normalmente entre três a oito sílabas por segundo – ou seja, 3 a 8 Hz, uma medida da frequência. Os pesquisadores acreditam que o cérebro humano é ativado para reconhecer construções gramaticais que caiam dentro desse faixa de frequências.

Martinez e sua equipe argumentaram que, se todos os músculos faciais dos alunos fizessem a “cara de não” dentro dessa mesma banda de frequência, então o rosto em si funcionaria como marcador gramatical universal de linguagem.

Nos testes, falantes nativos de inglês fizeram a “cara de não” a uma frequência de 4,33 Hz, de espanhol em 5,23 Hz, de mandarim em 7,49 Hz, e de linguagem de sinais em 5,48 Hz. Todas as frequências estavam dentro do intervalo de comunicação falada, o que sugere fortemente que a expressão facial é um marcador gramatical real.

Linguagem de sinais e expressão facial

Um resultado curioso do estudo foi que os participantes que usavam linguagem de sinais chegaram a utilizar a expressão facial como se fosse o único marcador gramatical na frase.

Eles às vezes sinalizavam a palavra “não”. Outras vezes, apenas balançavam a cabeça para dizer “não”. Ambas as formas são aceitas para comunicar negação na linguagem de sinais.

Mas, em alguns casos, esses participantes não fizeram nem o sinal, nem abanaram a cabeça. Eles só fizeram a “cara de não”, como se o rosto em si contasse explicitamente como um marcador de negação na sentença.

Esta é a primeira vez que pesquisadores documentaram uma terceira forma que os usuários da língua de sinais dizem “não”: apenas fazendo a tal cara.

No futuro

A análise manual das expressões faciais foi meticulosa, mas agora os pesquisadores querem fazer um estudo de acompanhamento totalmente automático, com novos algoritmos que irão extrair e analisar os movimentos faciais sem ajuda humana.

Eles também esperam identificar as expressões faciais que acompanham outros marcadores gramaticais, incluindo os positivos.

“Isso provavelmente vai levar décadas”, disse Martinez. “A maioria das expressões não se destacam tanto quanto a ‘cara de não’”.

O estudo foi publicado na revista científica Cognition. [ScienceDaily]

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