Esta estatística incorreta sobre a Amazônia é repetida sem parar

Por , em 29.08.2019

Por causa dos incêndios na Amazônia neste mês de agosto, políticos e celebridades no mundo todo têm repetido exaustivamente que a Amazônia produz 20% do oxigênio do mundo. “A floresta amazônica – os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta – está pegando fogo”, escreveu o presidente francês Emmanuel Macron, assim como Cristiano Ronaldo e outros.

Há muitos motivos para cobrar pela proteção das florestas, mas a alegação de que ela é responsável por 20% do oxigênio da Terra está cientificamente incorreta. Na verdade, quase todo oxigênio respirável do planeta veio dos oceanos.

O cientista atmosférico Scott Denning, da Universidade Estadual do Colorado, explica que quase todo o oxigênio livre do ar é produzido por plantas através da fotossíntese, e 33% da fotossíntese na terra acontece em florestas tropicais como a Amazônia.

“Mas praticamente todo oxigênio produzido pela fotossíntese todos os anos é consumido por organismos e por incêndios. As árvores constantemente se livram de folhas mortas, gravetos, raízes e outros dejetos, que alimentam um ecossistema rico de organismos, em sua maioria insetos e micróbios”, diz ele ao The Conversation. Esses insetos e micróbios, por sua vez, consomem oxigênio no processo de decomposição.

Então apesar de as plantas das florestas produzirem bastante oxigênio, elas também consomem uma parte deste oxigênio na própria respiração e os micróbios também consomem muito oxigênio para decompor essas plantas. Como resultado, sobra pouco oxigênio para se acumular na atmosfera. Então de onde veio todo este gás oxigênio do qual nós dependemos para viver?  

Como o oxigênio da atmosfera se acumulou?

Para que o O2 se acumule no ar, é necessário que a matéria orgânica produzida por plantas na fotossíntese seja retirada de circulação antes que o oxigênio seja consumido por micróbios em processos de decomposição.

Isso acontece quando a matéria é rapidamente enterrada em lugares sem oxigênio, geralmente no fundo do mar, sob águas que são pobres neste gás.

Este processo acontece com mais frequência em áreas do oceano em que há altos níveis de nutrientes para fertilizar algas. As algas mortas e outros detritos afundam e os micróbios se alimentam dela. Assim como os micróbios da terra, eles consomem oxigênio para fazer isso, retirando-o da água.

Nessas profundidades onde quase não há oxigênio na água, a matéria orgânica que sobrou é enterrada. O oxigênio que as algas produziram na superfície continua no ar porque elas não foram consumidas por decompositores, já que esta matéria fica presa em um local em que não há decomposição. E o gás carbônico sequestrado por esses organismos não consegue se combinar com o oxigênio para formar o CO2.

A matéria vegetal no fundo do oceano vira petróleo e gás. Já a matéria presa em locais sem oxigênio na terra se transforma em carvão mineral.

O pesquisador explica que apenas uma pequena sobra de 0,0001% de oxigênio produzido pelas algas e que não foi consumida no processo de decomposição acumulou-se através de milhões de anos na atmosfera, e formou uma reserva de oxigênio respirável que sustenta toda a vida animal no planeta.

Composição do ar é estável

A composição média do ar é de 78% de gás nitrogênio, 21% de gás oxigênio e 1% de outros gases como argônio e dióxido de carbono. Esta proporção tem permanecido estável há milhões de anos.

Em outras palavras: apesar de a fotossíntese das plantas ser a responsável pelo oxigênio respirável, apenas uma fração minúscula do crescimento das plantas contribui para a reserva de oxigênio do ar.

Denning afirma que mesmo que toda a matéria orgânica da Terra fosse queimada de uma vez, menos de 1% do oxigênio do planeta seria consumido nesta combustão. “Na verdade quase todo o oxigênio respirável da Terra se originou nos oceanos, e há o suficiente dele para durar por milhões de anos”, diz ele.

Ar-condicionado da Terra

O problema das queimadas não seria a interrupção do fornecimento do oxigênio respirável, e sim a liberação repentina de muito dióxido de carbono que está contido nas plantas para a atmosfera, o que contribui para a piora da crise climática.

Além disso, as queimadas causam perda inestimável da biodiversidade da região amazônica e a destruição de Terras Indígenas da Amazônia. 

Outra questão importante é que com a fotossíntese, as árvores liberam moléculas de água na atmosfera, possibilitando a formação de grandes nuvens de chuva que viajam por milhares de quilômetros para desaguar no continente americano todo. Ao invés de chamar a Amazônia de “pulmão do mundo”, seria melhor chamá-la de “ar-condicionado e umidificador do mundo”. [The Conversation, UFMG, NBC News]

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