Instalação de arte A.Human exibe “moda sci-fi” na qual pessoas mudam o corpo em vez das roupas

Por , em 14.09.2018

Imagine um futuro no qual, ao invés de escolherem roupas ousadas para se destacarem, as pessoas simplesmente adicionassem diferenciais a seu próprio corpo.

É essa a ideia que a instalação de arte A.Human, sobre uma casa de moda futurista para modificação corporal, quer passar.

A exibição, que começou há pouco tempo em um showroom de Manhattan, em Nova York, vai até o final de setembro. É uma coleção de peças de moda afixadas à carne humana, modeladas em parte por manequins e em parte por atores que posam como manequins.

Embora isso soe como o pior dos pesadelos, A.Human é uma tentativa ousada de levantar algumas questões interessantes, ainda que um pouco sem foco.

O que se encontra lá?

Um designer fictício chamado A. Huxley (em homenagem a Aldous Huxley, autor do romance distópico “Admirável Mundo Novo”) está supostamente exibindo sua coleção de moda de 2019 bem a tempo para a New York Fashion Week.

O espaço, que começa como uma sala escura e cheia de sujeira antes de se transformar em corredores brilhantes e repletos de espelhos, foi projetado pelo diretor de teatro Michael Counts.

Logo no início, você pode encontrar peças como o “Tudor”, um colar aparentemente feito de carne e exibido em um homem enterrado até o pescoço no solo. Outras peças intrigantes incluem nichos de pés sem corpo modelando saltos altos embutidos. Ocasionalmente, um deles contorce os dedos.

Há ainda peças como o “Pináculo”, um par de chifres de ombro usado por uma modelo que olha fixamente para uma parede espelhada.

Interação

Para uma pausa na moda corporal, você pode entrar em uma sala transformada em uma gruta com um coração pulsante, ou posar com um grande anel feito de mãos humanas estilizadas.

Ao sair, você pode personalizar um coração e imprimi-lo em uma camiseta, aparentemente como uma maneira de testar um novo implante coronário antes de comprá-lo.

Qual o propósito da instalação?

A.Human foi produzido por um grupo de entretenimento chamado Society of Spectacle, fundado pelo executivo de marketing Simon Huck, mais conhecido por sua amizade com a família Kardashian.

A instalação é projetada para mídias sociais. Fotografias são encorajadas, e a equipe até criou uma “gargantilha-prótese” para Kim Kardashian usar no Instagram.

Mas Huck também vê sua exibição como uma forma de abrir um diálogo. “Queremos que todos tirem sua foto divertida e, sim, esperamos, tenham uma experiência emocionante”, disse ele ao portal The Verge. “Mas a pergunta que queremos fazer é: se você pudesse mudar seu corpo tão facilmente quanto troca de roupa, você o faria?”

Essa não é uma pergunta exatamente nova. Por exemplo, é tema de recentes seriados de ficção como Altered Carbon, e jogos como Cyberpunk 2077. O diferencial é que Huck não quer que a exposição pareça distópica. Ela funciona mais como o futuro ciborgue brilhante que os transumanistas da vida real como Zoltan Istvan preveem, sem o papo de “superforça” ou imortalidade.

A carne e os chifres nos ombros podem assustar algumas pessoas, mas a Society of Spectacle tenta minimizar essas reações evitando uma visão realista da modificação corporal. As formas implantadas de A.Human são visualmente convincentes, mas conceitualmente fantásticas.

A proposta é de que instalar uma modificação é tão fácil quanto depilar as sobrancelhas. As peças são deixadas sem preço para sugerir que são “acessíveis a qualquer um”, explica Huck. E existem em um futuro que é “desprovido de tabu e julgamento”, onde todos são livres para projetar exatamente o corpo que desejam.

Críticas

Algumas reportagens especularam que os implantes de A.Human poderiam ser o “futuro da moda”. Isso não é impossível, mas não há nada na instalação de arte que sugira como chegaríamos a esse futuro, argumenta a repórter do The Verge Adi Robertson, que esteve no showroom.

A arte também não entra nos problemas reais enfrentados pelos modistas corporais ou fashionistas atuais. Em vez disso, apenas pede aos visitantes para imaginar um mundo onde todas essas questões já foram resolvidas e qualquer pessoa muda o corpo a seu bel-prazer.

De acordo com Robertson, este é um tipo de futurismo totalmente legítimo. As peças de moda mais intrigantes de A.Human chamam a atenção para nossa fascinação mórbida com corpos incomuns, e pedem às pessoas que encontrem beleza em looks que normalmente seriam usados em filmes de horror.

Mas o utopismo de A.Human não se encaixa com o conceito de que A. Huxley seja um verdadeiro designer em uma indústria da moda supostamente progressista para os padrões atuais, que quer ajudar as pessoas a perceberem o que têm de melhor.

Robertson crê que a instalação de arte tem armadilhas que o ancoram em um mundo onde os corpos são julgados impiedosamente e a modificação corporal é severamente conformista.

Antes da estreia da instalação, Huck disse à Vogue que A.Human evitaria qualquer coisa diretamente inspirada pelos padrões de beleza existentes. No entanto, em um ambiente quase contemporâneo, onde algumas mulheres já fazem cirurgia para usar salto alto, os pés com salto embutido parecem decididamente menos dramáticos. E, mesmo no futuro livre de tabus da A.Human, os modelos têm músculos tonificados, gordura corporal mínima e em geral pele clara.

Além disso, os atores são exibidos como objetos comerciais passivos, o que é mais assustador do que qualquer uma das modificações. “A.Human seria radicalmente diferente se os visitantes estivessem se misturando com seres humanos ‘modificados’ em uma festa, ou mesmo assistindo a um desfile”, opina Robertson.

No futuro

Embora não haja nada certo ainda, Huck espera levar a instalação em turnê depois que ela fechar em Nova York, no dia 30 de setembro.

Recriar a exibição, contudo, é complicado e aparentemente muito caro. Eventualmente, a equipe pode executar um “A.Human 2.0”.

Talvez essa sequência transmita ainda melhor as ideias da Society of Spectacle. [TheVerge]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (14 votos, média: 4,57 de 5)

Deixe seu comentário!