Mudança climática: os ursos polares estão realmente morrendo de fome

Por , em 5.02.2018

As imagens extremamente tristes de ursos polares em pele e osso não são casos isolados e nem jogadas de marketing. Segundo um novo estudo americano, devido ao derretimento do gelo, é provável que mais ursos polares morram de fome em breve.

Os pesquisadores – incluindo membros do Serviço Geológico dos Estados Unidos, da Universidade da Califórnia e da ONG de conservação San Diego Zoo Global – descobriram que esses animais precisam comer 60% mais do que pensávamos. Como predadores de alta energia, os ursos queimam cerca de 12.000 calorias por dia. E, no entanto, com a diminuição do gelo, estão tendo muita dificuldade em encontrar comida – no caso, focas.

Detalhes do estudo foram publicados em um artigo na prestigiosa revista científica Science.

Sim, ursos polares estão passando fome

Talvez você tenha visto o último vídeo viral de um urso polar faminto se agarrando à vida, do grupo sem fins lucrativos Sea Legacy, publicado no início de dezembro, ou até outra filmagem parecida. De uns tempos para cá, essas imagens têm acendido o debate sobre os impactos da mudança climática nesses animais.

“Nosso estudo revela a total dependência que os ursos polares têm das focas”, disse o principal autor do estudo, Anthony Pagano, biólogo da vida selvagem do Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Os ursos polares dependem quase que exclusivamente de uma dieta carregada de calorias de focas. Para minimizar seu consumo de energia, os ursos caçam sentados, aguardando por horas a passagem de uma foca, que costuma se aproximar da superfície para respirar. Quando encontram uma, os ursos ficam em suas pernas traseiras e acertam o animal na cabeça com as duas patas dianteiras, atordoando-o, para em seguida morder seu pescoço e arrastá-lo para o gelo.

Esse é seu método mais bem-sucedido de caça, e é também uma das razões pela qual o derretimento do gelo ameaça sua sobrevivência.

Os dados do estudo

O estudo envolveu a captura de nove ursas, todas fêmeas, no Mar de Beaufort, no Alasca, em abril passado, quando geralmente há bastante focas para alimentação.

Os ursos foram equipados com colares de GPS contendo câmeras para gravar vídeos. Amostras de sangue e urina também foram coletadas. 8 a 11 dias depois, as ursas foram recapturadas.

Uma delas tinha andado 250 quilômetros de distância. Os dados mostraram que os animais ficaram ativos cerca de 35% do tempo e descansaram o restante, mas queimaram em média 12.325 calorias por dia. Isso é cerca de 60% a mais do que estudos anteriores tinham estimado, e tais calorias vieram em grande parte das reservas que as ursas tinham no corpo.

Os vídeos revelaram que quatro das fêmeas não conseguiram pegar uma única foca. As medidas mostraram que esses animais perderam 10% ou mais da sua massa corporal. Uma ursa perdeu cerca de 20 quilos, incluindo músculo magro, em 10 dias. Esta mesma ursa saltou para o mar em uma tentativa fracassada de pegar uma foca nadando, no que deve ter sido um ato desesperado.

Predadores solitários e vulneráveis

O novo estudo mostra que os ursos polares são mais parecidos com os grandes felinos, como leões e tigres, do que pensávamos. Ou seja, são carnívoros predatórios com metabolismos de alta energia.

Como caçadores solitários, os ursos são mais como tigres, só que com o dobro do tamanho. No entanto, são vulneráveis em sua dependência quase total de uma única espécie de presa.

Os resultados indicam que a perda de gelo marinho pode ter um impacto maior nos ursos do que acreditávamos.

A mudança climática está aquecendo o Ártico mais rápido do que qualquer outro lugar. O gelo marinho está diminuindo 14% por década. Hoje, há quase dois milhões de quilômetros quadrados a menos de gelo do que a média de 1981 a 2010.

O gelo está se fragmentando mais cedo no final da primavera e se formando mais tarde no outono, forçando os ursos a queimar grandes quantidades de energia caminhando ou nadando longas distâncias, ou a ficar mais tempo em terra, em jejum, vivendo da gordura das focas que conseguiram capturafr anteriormente.

Declínio da população

Em 2010, uma pesquisa realizada por Steven Amstrup, cientista-chefe da Polar Bears International, uma organização centrada na conservação desses animais, previu que o declínio continuado do gelo marinho reduziria a população mundial de ursos em dois terços, para menos de 10.000 até 2050.

As melhores estimativas dizem que há 20.000 a 30.000 ursos polares em 19 grupos diferentes ou populações espalhadas pelos EUA, Canadá, Groenlândia, Noruega e Rússia.

Quatro dessas populações são consideradas em declínio, e cinco dessas populações são consideradas estáveis. Não há informações suficientes sobre as demais para julgá-las. Os ursos na região do Mar de Beaufort estão entre os melhores estudados e seus números caíram 40% nos últimos dez anos.

A ligação com a mudança climática

O que aprendemos de vez com essa nova pesquisa é que ursos não são feitos para caminhar. Graças à sua dieta energética de focas, eles podem percorrer áreas grandes, mas perdem peso rapidamente. Isso não seria um problema se eles conseguissem recuperar tal peso rapidamente também – machos de 500 quilos podem consumir 100 quilos de foca em uma única refeição.

Contudo, quanto mais os ursos têm que viajar para chegar no gelo e caçar, mais peso eles perdem. Eventualmente, começam a perder músculo, prejudicando suas chances de sucesso na caça – ou seja, um ciclo terrível que só piora.

Os ursos também estão nadando muito mais por conta da diminuição do gelo. Embora sejam capazes de nadar longas distâncias, queimam muito mais energia fazendo isso do que caminhando. A necessidade de mais natação poderia levar a ursos menores, taxas de reprodução reduzidas e até aumento do risco de morte – algo já visto no oeste da baía de Hudson e no Mar de Beaufort.

Não há dúvida de que, à medida que o gelo marinho diminui, mais e mais ursos morrerão de fome. “Eu não sei se aquele pobre urso naquele vídeo estava morrendo de fome. Eu sei que a única solução para a sobrevivência a longo prazo do urso polar é lidar com a mudança climática”, afirma Amstrup. [NatGeo]

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