Pela segunda vez, uma pessoa é curada do HIV

Por , em 6.03.2019

Pela segunda vez na história, uma pessoa com HIV parece estar livre do vírus depois de receber um transplante de células-tronco que substituiu seus glóbulos brancos por versões resistentes à doença.

Os pesquisadores alertam que ainda é cedo para dizer se o paciente, cuja identidade não foi revelada, está definitivamente curado.

O indivíduo tinha uma espécie de linfoma de Hodgkin, que os médicos trataram em 2016 com um transplante de medula óssea. Como o primeiro paciente curado do HIV, as células-tronco vieram de um doador que tinha uma mutação no gene CCR5, que torna seu portador naturalmente imune ao vírus.

Desde então, o paciente foi capaz de parar de tomar medicamentos antirretrovirais e, 18 meses depois, ainda não há sinal de retorno do vírus.

Os casos excepcionais

A técnica de células-tronco foi usada pela primeira vez há uma década em Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”, que até hoje está livre do vírus.

Em 2007, Timothy recebeu um transplante de células-tronco para tratar uma leucemia. A terapia teve algumas complicações e Timothy quase faleceu, mas agora é considerado curado do HIV.

Como Brown, o último paciente também tinha uma forma de câncer no sangue que não respondia à quimioterapia, necessitando de um transplante de medula óssea de um doador saudável.

Em vez de escolher qualquer doador adequado, a equipe – liderada por Ravindra Gupta, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido – escolheu um que tinha duas cópias de uma mutação no gene CCR5, que dá às pessoas resistência ao HIV.

O CCR5

O gene codifica um receptor que fica na superfície dos glóbulos brancos envolvidos na resposta imune do corpo. Normalmente, o HIV se liga a esses receptores e ataca as células, mas uma deleção no gene CCR5 impede que os receptores funcionem adequadamente.

Cerca de 1% das pessoas de descendência europeia têm duas cópias dessa mutação e são resistentes à infecção pelo HIV.

A equipe de Gupta descreveu os resultados em um artigo publicado na prestigiosa revista científica Nature. O transplante substituiu com sucesso os glóbulos brancos do paciente pela variante resistente ao HIV. O vírus desapareceu completamente do sangue do paciente após o transplante. 16 meses depois, ele parou de tomar medicamentos antirretrovirais, o tratamento padrão para o HIV. No último acompanhamento realizado pelos pesquisadores, 18 meses após ele parar com a medicação, ainda não havia sinal do vírus.

Células circulando no sangue do paciente pararam de expressar o receptor CCR5 e, em laboratório, os pesquisadores não puderam infectar novamente essas células com a versão do HIV do paciente.

Sucesso

Gupta diz que ainda não é possível dizer se o paciente foi curado. Isso só pode ser demonstrado se o sangue do paciente permanecer livre do HIV por mais tempo.

Mas o estudo sugere que o tratamento bem-sucedido de Timothy dez anos atrás não foi um caso isolado.

Além disso, o último paciente recebeu um tratamento menos agressivo do que Timothy para se preparar para o transplante. Isso é um avanço, uma vez que sugere que, para funcionar, a terapia não precisa necessariamente ser acompanhada por potenciais efeitos colaterais graves.

Progresso lento

Infelizmente, no entanto, esse tipo de tratamento não seria adequado para a maioria das pessoas com HIV. Isso porque esses pacientes não têm câncer e, portanto, não precisam de um transplante de medula óssea, que é um procedimento sério que às vezes pode ter complicações fatais.

De acordo com Graham Cooke, pesquisador clínico do Imperial College de Londres, “se você está bem, o risco de ter um transplante de medula óssea é muito maior do que o risco de tomar comprimidos todos os dias”, uma vez que a maioria das pessoas com HIV responde bem ao tratamento antirretroviral diário.

Apesar disso, para aqueles que precisam de um transplante para tratar leucemia ou outras doenças, parece razoável tentar encontrar um doador com a mutação no CCR5, o que não acrescentaria nenhum risco ao procedimento.

Gero Hütter, que liderou o tratamento de Timothy e agora é diretor médico da Cellex, empresa de células-tronco em Dresden, na Alemanha, concorda que esse tipo de tratamento só poderia ser usado para um pequeno grupo de pacientes. Mas ele espera que o novo sucesso estimule um interesse renovado nas terapias genéticas que visam o CCR5, o que poderia ser aplicado a um grupo muito mais amplo de pessoas.

Outros métodos que visam o gene – e não são tão caros ou arriscados como os transplantes – podem ser um caminho. Um dos exemplos mais notáveis é o CRISPR, a ferramenta de edição de genes que o cientista chinês He Jiankui usou para alterar geneticamente as gêmeas chinesas Lulu e Nana, dando a elas imunidade à AIDS como resultado da manipulação do CCR5. [Nature, BigThink]

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