Palmadas podem afetar comportamento e capacidade de aprendizado de seu filho

Por , em 22.10.2013

Um novo estudo publicado na revista Pediatrics afirma que apanhar pode afetar o comportamento de uma criança e sua capacidade de aprendizagem durante anos.

Crianças de 9 anos que apanharam pelo menos duas vezes por semana pelos pais aos 3 ou 5 anos eram muito mais propensas a quebrar regras e agir de forma agressiva do que as crianças que não levaram palmadas.

Elas também eram mais propensas a pontuar mais baixo em testes de vocabulário e compreensão de linguagem, se tivessem apanhado com frequência aos 5 anos de idade.

O estudo

Cerca de 2.000 famílias em 20 cidades nos Estados Unidos participaram da pesquisa da Universidade de Columbia (EUA). Os pesquisadores perguntaram aos pais quantas vezes eles haviam batido no seu filho porque ele havia se comportado mal no mês anterior em duas ocasiões: quando a criança tinha 3 e 5 anos.

Também, avaliaram o comportamento agressivo das crianças e seu vocabulário nas idades de 3 e 9.

No geral, 57% das mães e 40% dos pais bateram nos seus filhos de 3 anos de idade, enquanto 52% das mães e 33% dos pais relataram dar palmadas seus filhos de 5 anos de idade.

As crianças cujos pais as bateram nas idades entre 3 e 5 se mostraram mais propensas a agir de forma agressiva e quebrar regras aos 9 anos. Em comparação, apenas as crianças que apanharam com frequência (duas vezes ou mais por semana) aos 3 anos de idade mostraram esse efeito de agressão com 9 anos.

“Essas descobertas surpreendem pessoas que usam a palmada para obter resultados imediatos, ou seja, a palmada pode fazer seu filho parar de fazer o que está fazendo no momento”, disse Catherine Taylor, da Universidade de Nova Orleans (EUA), que não participou do estudo. “Mesmo que as crianças não reajam às palmadas de cara, ninguém fica feliz de apanhar. Os pais estão, inadvertidamente, ensinando a criança que bater ou ser agressiva é uma maneira de resolver problemas”.

Apanhar também teve um efeito sobre as competências linguísticas da aos de 9 anos. As que foram surradas com frequência aos 5 eram muito mais propensas a ir mal em testes que julgaram seu vocabulário receptivo, que é a capacidade de reconhecer e compreender palavras ao ouvi-las ou lê-las.

Esta segunda descoberta sugere que quando os pais batem nos pequenos para fins disciplinares, geram efeitos a longo prazo sobre a capacidade verbal das crianças. “Isso, naturalmente, tem implicações para o desempenho acadêmico e sucesso geral na vida delas no futuro”, disse Taylor.

Ao avaliar a agressão e vocabulário das crianças aos 3 anos, o estudo também testou o argumento de que algumas delas são apenas mal comportadas e, portanto, recebem mais palmadas. Eles descobriram que os efeitos comportamentais e o atraso cognitivo das crianças de 5 anos que apanhavam com frequência mantiveram-se constantes, independentemente do comportamento inicial da criança.

Embora a pesquisa mostre uma aparente associação entre palmadas e comportamento agressivo e habilidades de aprendizagem da criança, não necessariamente prova uma relação de causa-e-efeito.

Evidências fortes

Esses resultados fazem coro a outras evidências científicas de que bater nos filhos não faz bem para sua educação.

Um estudo publicado em março desse ano descobriu que crianças que apanham e têm uma predisposição genética para o comportamento agressivo se tornam mais agressivas. Pesquisadores canadenses afirmaram em julho que até 7% de uma série de distúrbios de saúde mental em adultos foram associados com a punição física durante a infância.

Outro estudo da Universidade de Manitoba e do Hospital Infantil de Eastern Ontario que analisou 36 mil pessoas durante 20 anos concluiu que nenhuma punição física tem efeito positivo – a maior parte tem, na verdade, efeitos negativos.

Além disso, um estudo da Universidade de Plymouth, em Devon (Reino Unido), indicou que pais que batem em ou gritam com seus filhos os colocam em maiores riscos de desenvolver câncer, doença cardíaca e asma.

Proibir ou não proibir

32 países proíbem o castigo físico de crianças por pais ou responsáveis. No Brasil, a chamada “Lei da Palmada” está em tramitação e pode punir pais que maltratem os filhos. Já nos EUA e Canadá a prática é permitida, apesar da Academia Americana de Pediatria desaconselhar fortemente o uso de castigos físicos como forma de disciplina.

Uma pesquisa de 2010 realizada com 4.025 pessoas com mais de 16 anos em 11 capitais do Brasil revelou que 70,5% delas sofreram alguma forma de castigo físico quando jovens. Nos EUA, a porcentagem passa dos 90% – e fica em torno dos 10% na Suécia.

Esses números altos contradizem uma pesquisa feita pela CNN que analisou 16 países de culturas diferentes e sugeriu que a conversa é a arma mais poderosa para disciplinar as crianças. Tirar um privilégio (como videogame) é a segunda tática mais popular. As menos consideradas foram mandar as crianças para o quarto e bater nelas.

Ora parece que os pais não costumam bater nas crianças, ora parece que as batem a todo momento. Às vezes nos inclinamos às palmadas porque senão nossos filhos serão desobedientes e delinquentes, outras vezes nos inclinamos a não bater neles pelo mesmo motivo. O que fazer então?

De acordo com Tania Zagury, mestre em educação, filósofa, escritora e professora da Universidade Federal do Rio Janeiro, se parece que nossos antepassados conseguiram mais com os jovens do que se consegue hoje, seguramente não foi porque batiam nos filhos. O que ocorreu foi que uma série de fatores, como a influência das novas mídias exacerbando o consumismo, a corrupção (e a impunidade) por parte dos que deveriam dar o exemplo aos mais jovens, a desestruturação da família e a ausência de ambos os pais em casa, para citar alguns, tornaram educar um desafio gigantesco nas últimas décadas.

Com isso, os pais acabaram perdendo o foco do que é realmente importante. Muitos hoje consideram sua tarefa principal “fazer o filho feliz”, o que acaba resultando em apenas satisfazer desejos e vontades. Anteriormente, era “fazer dos filhos homens de bem”, significando priorizar fundamentos éticos na educação. “E isso se alcança com muito diálogo, ensinando a pensar e a não se deixar conduzir por mídias ou grupos. No entanto, é tarefa quase inexequível para quem não tem certeza do que é prioritário”, esclarece Tania. [MedicalXpress]

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11 comentários

  • Raphael Nascimento:

    É óbvio que não se pode espancar uma criança, isso é absurdo. Mas acredito sim que a palmada serve como segunda instância ao diálogo. 1a Vez – “Não faça”. 2a Vez – “Não faça + palmada”. Não me tornei um adulto complexado por ter apanhado da minha mãe, ao contrário, sempre soube quando apanhava que era por ter desobedecido.

    • Dowglasz NRamachandra:

      É por isso que eu gosto das máquinas. Se o computador faz algo errado e você bate nele, ele vai te responder cada vez pior, assim como as crianças. Mas, diferente das crianças, quando um computador dá a resposta errada não significa que ele é mal-programado, mas que você não está se comunicando adequadamente com ele. Se o computador não faz o que você manda, não é porque ele é desobediente mas porque você deu o comando errado.
      O erro está em você e não no computador. Pobres crianças.

  • SALES CANTANHEDE:

    apoio as palmadinas mais sou contra o espacamento.conversa e bom ate um certo ponto, mas as palmadas faz entander malhor.kkkk

    • Cesar Grossmann:

      Uma palmada é uma agressão contra alguém indefeso e vulnerável. O que você pode ensinar para uma criança assim?

    • Rodrigo Souza:

      Por que? Tipo, se ela não fizer vai apanhar mais? e quando não puder mais apanhar?

    • Cesar Grossmann:

      Tipo, que quando ela quer fazer a vontade dela valer, deve usar de violência?

      Mas, sério mesmo, não ocorre nenhuma maneira de educar uma criança sem precisar apelar para a violência? A “Super Nanny” não ensinou nada?

    • Dowglasz NRamachandra:

      Hoje o pai manda no filho, amanhã o filho manda no pai. A razão é simples: Lei da Palmada (quem é mais forte ganha; crianças são fracas em relação a adultos, mas adultos são fortes em relação a idosos).
      Escolha como você ser tratado daqui a alguns anos.

  • Diego Willrich:

    Postei esta matéria em um grupo do FB que acompanho chamado “Bater em Criança é Covardia” e a moderadora me chamou a atenção para um erro sério na tradução de “spanking”:

    Andreia Mortensen: Só um comentário, que é um erro MUITO grave- traduziram palmada como espancamento (em inglês palmada é spanking, então um tradutor muito ruim fez esse erro).

    Veja, todo mundo é contra espancar uma criança (ou quase todos). Mas a vasta maioria acha que a palmada é inofensiva!
    Então, ao fazer esse erro grotesco na tradução, está se afirmando que é só o espancamento que provoca problemas. Os defensores das ‘palmadinhas’ não são atingidos.

  • Valdivino Pinheiro Safiralife:

    A ciência, praticada assim, é inútil. Obviamente estas crianças apanhavam mais e eram mais castigadas exatamente por ser mais inquietas e desobedientes que as crianças calmas do grupo de controle. Herança genética explica melhor e espírito de rebeldia de muitas crianças, pois conheço casos em que os pais suportam tudo quietos, não batem, somente dão castigos orientados por psicólogos; no entanto,seus filhos são verdadeiros demônios.

    • Cesar Grossmann:

      E aí, tem criança que apanha e também são “verdadeiros demônios”.

      A série Nanny mostrou que a surra não é necessária, o que é necessário são pais mais comprometidos com a educação dos filhos.

  • Cesar Grossmann:

    Seria mais interessante que os pais aprendessem a negociar e influenciar seus filhos de modo que eles quisessem obedecer. Bom, na verdade existe uma parte das crianças que quer obedecer, é aquela parte que ganha elogios quando obedece. A parte que não obedece, que teima e faz birra é a parte que só recebe atenção quando desobedece, teima e faz birra.

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