Como a neurociência ajudou a resgatar órfãos na Romênia

Publicado em 5.08.2013

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Em 24 anos de governo (1965 a 1989), o líder comunista Nicolau Ceaușescu levou à criação de uma verdadeira multidão de órfãos na Romênia: famílias com menos de cinco filhos pagavam multa; agentes governamentais examinavam mulheres que não atingiam a “cota” de filhos; por fim, a dura realidade econômica do país levou muitas famílias a deixar seus filhos em orfanatos.

“Ceaușescu deliberadamente cultivou a população de órfãos na esperança de criar uma lealdade – e uma dependência – em relação ao Estado”, explica a jornalista Virginia Hughes, em artigo publicado na revista Aeon.

No natal de 1989, Ceaușescu e sua esposa foram executados, mas o estrago já estava feito: cerca de 170 mil crianças viviam em mais de 700 orfanatos mantidos pelo governo. “Em muitas instituições, as crianças tinham alimentação, higiene e cuidados médicos adequados, mas lamentavelmente poucas interações com adultos, levando a severos problemas emocionais e comportamentais”.

Apoio científico

A situação dos órfãos na Romênia ganhou destaque internacional – inclusive entre pesquisadores e profissionais da saúde, como a neonatologista Dana Johnson. “Eu me senti comovida pelas crianças em orfanatos”, conta. As condições em que elas viviam “estavam em grande contraste com as de crianças que nós víamos na adoção internacional que foram criadas em lares adotivos”.

Johnson fez uma apresentação científica sobre o tema, que chamou a atenção do psiquiatra Charles Zeanah.

Ele e sua esposa viajaram até a Romênia para ver os órfãos por si mesmos. “Durante sua primeira visita a um orfanato, o casal não pôde evitar chorar em frente às crianças. Uma delas foi confortá-los, dizendo ‘Está tudo bem, está tudo bem’”, conta Hughes.

Lá, eles se reuniram com o chefe do recém-criado Departamento de Proteção à Criança, Cristian Tabacaru, que estava sendo pressionado para fechar várias instituições. Tabacaru viu como um estudo científico poderia ajudar a encontrar outra solução.

“Se houvesse evidência científica para dar suporte à ideia de que cuidado em instituição era melhor para as crianças, ele teria mais força para lidar com seus colegas políticos”, explica o neurocientista Charles Nelson, que ajudou nas investigações.

O estudo apontou que crianças que vão para orfanatos antes de completar dois anos de idade muitas vezes desenvolvem transtornos, possivelmente por receber pouca atenção individual.

Com base nas evidências coletadas, o governo da Romênia aprimorou a estrutura dos orfanatos e ajudou milhares de órfãos a serem adotados por famílias que poderiam ajudá-los a crescer com saúde – a situação, no fim das contas, não ficou ideal, mas melhorou consideravelmente. [Aeon]

Autor: Guilherme de Souza

É jornalista empenhado e ilustrador em treinamento. Curte ciência, cultura japonesa, literatura, seriados, jogos de videogame e outras nerdices. Tem alergia a música sertaneja e acha uma pena que a Disco Music tenha caído no esquecimento.

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