DNA de pé-grande finalmente encontrado?

Publicado em 18.02.2013

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Você já deve ter ouvido falar no Pé Grande, uma suposta criatura peluda híbrida entre humanos e algum outro animal cuja existência nunca foi confirmada – mas certamente já foi especulada, mais vezes até que o monstro do Lago Ness e outros seres misteriosos e talvez reais.

Em novembro do ano passado, uma veterinária do Texas (EUA) foi mais longe do que qualquer pessoa quando alegou ter feito testes genéticos que confirmaram não só que o Pé Grande é real, como é um parente dos seres humanos que surgiu cerca de 15.000 anos atrás.

O estudo, realizado por Melba S. Ketchum, sugeriu que alguma espécie desconhecida teve relações sexuais com fêmeas humanas modernas que resultaram em híbridos hominídeos peludos.

“Nossos dados indicam que o Pé Grande é uma espécie híbrida, o resultado de machos de uma espécie hominídea desconhecida que cruzou com Homo sapiens do sexo feminino”, disse.

No entanto, a comunidade científica permanece extremamente cética com relação à “descoberta”, em parte porque a pesquisa de Ketchum, que durou cinco anos, não apareceu em nenhuma revista científica verificada por pesquisadores renomados, e parece não apresentar evidências conclusivas sobre a existência de uma espécie desconhecida.

Provas pouco convincentes

A pesquisa supostamente utilizou 111 amostras de pelo, sangue, muco, unha, casca, saliva, cabelo e tecidos subcutâneos recolhidos por dezenas de pessoas em 34 locais ao redor da América do Norte que são, alegadamente, de Pé Grande. Até mesmo o DNA obtido de sobras de bagels (tipo de pão) de mirtilo comidos por uma família de 10 Pés Grandes que viviam em Michigan (EUA) foi estudado.

Essas amostras foram comparadas com as de animais comuns, incluindo vacas, cães, cavalos, veados, alces, raposas, ursos, coiotes, lobos e humanos. Segundo os pesquisadores, não coincidiu com nenhuma delas.

O relatório conclui que a análise e sequenciamento do DNA de mais de cem amostras separadas obtidas a partir de um grande número de pontos de coleta na América do Norte revela dois tipos diferentes de resultados: o DNA mitocondrial é inequivocamente humano, enquanto que o DNA nuclear mostra uma nova estrutura e sequência de dados, “prova conclusiva” de que o Pé Grande existe, é um hominídeo e um descendente direto materno de humanos modernos.

No entanto, especialistas como Benjamin Radford, editor-adjunto da revista científica “Skeptical Inquirer” e autor de seis livros, acreditam que a interpretação mais provável para tais resultados mistos é que tais amostras estavam contaminadas.

É possível que as pessoas que coletaram tais amostras (a maioria caçadores de criaturas mitológicas e místicas com pouca ou nenhuma formação de recolha de prova forense) introduziram acidentalmente seu DNA nas mesmas, o que pode ocorrer facilmente com algo tão inocente quanto um espirro ou tosse.

Embora o estudo afirme que os pesquisadores tomaram precauções exaustivas para minimizar ou eliminar a contaminação em laboratório, a probabilidade de que as amostras já estavam contaminadas no campo por métodos de coleta descuidados, degradação ambiental natural e outros fatores não foi abordada.

Além disso, a equipe não tem como definitivamente determinar que as amostras são de Pés Grandes. Como eles sabem se tais bagels foram realmente comidos por uma espécie desconhecida? Etiquetas das amostras recuperadas descrevem “cabelo encontrado em árvore”, “pelo encontrado em cerca de arame”, etc; em outras palavras, as pessoas que coletaram essas amostras não viram que animal as deixou lá, possivelmente semanas ou meses antes delas serem recolhidas. Desse jeito, não há como provar que vêm de Pés Grandes.

O Dr. Todd Disotell da Universidade de Nova York (EUA) também rejeita a ideia de que o Pé Grande poderia ser um primata que surgiu tão recentemente quanto os resultados de DNA afirmam.

“Se é um primata que é tão semelhante a nós, que se separou de nós cerca de 15.000 anos atrás, somos apenas nós”, disse. “Mesmo as pessoas de ascendência europeia têm 50.000 anos de ascendência comum com os primeiros humanos que deixaram a África”.

Em outras palavras, há muito mais de 15.000 anos de diversidade genética entre os humanos comuns, por isso a ideia de que algo que se separou de nossa linhagem há tão pouco tempo seja tão diferente de nós quanto o Pé Grande é um absurdo.

Jornal “científico”

O estudo, intitulado “Novel North American Hominins: Next Generation Sequencing of Three Whole Genomes and Associated Studies” (algo como “Novo Hominídeo Norte-Americano: Melhor Geração de Sequenciamento de Três Genomas Inteiros e Estudos Associados”), foi aparentemente publicado no “DeNovo Scientific Journal”, e rejeitado por todas as outras revistas científicas.

Mas que revista ou jornal científico é esse DeNovo?

A revista não tem outros estudos, artigos, documentos ou opiniões publicados, apenas o estudo de Ketchum. Nenhuma biblioteca ou universidade assina tal jornal. O website da revista, aparentemente, não existia há três semanas. Além disso, não há nenhuma indicação de que a pesquisa foi analisada por outros cientistas reconhecidos para garantir sua qualidade. Em resumo: não é uma revista científica existente, conhecida ou respeitada, em qualquer sentido da palavra.

Isto levanta algumas bandeiras vermelhas: se os resultados do estudo de Ketchum são tão válidos, por que não apareceram em um respeitado jornal científico revisto por pesquisadores confiáveis?

Certamente qualquer jornal respeitável lutaria com unhas e dentes para ser o primeiro a publicar evidência válida e inovadora da existência de um animal bípede desconhecido.

Essa não é a primeira vez que cientistas tentam concluir geneticamente se existe um Pé Grande. Por exemplo, pesquisadores da Universidade de Oxford (Reino Unido) e do Museu de Zoologia de Lausanne (Suíça) anunciaram no ano passado que iriam testar amostras que supostos crentes de Pé Grande se ofereceram para enviar.

A ideia era desafiar os criptozoologistas a demonstrar evidência científica para provar suas ideias, em vez de reclamar que a ciência rejeita o que eles têm a dizer, explicou o geneticista Bryan Sykes, da Universidade de Oxford. Por enquanto, isso não deu em nada.

Sendo assim, parece que o estudo de Ketchum não vai abalar o mundo com sua evidência científica férrea de um Pé Grande. Os cientistas certamente não ficaram impressionados, mas os crentes podem ficar. Inclusive, podem até começar tumultos nos EUA em favor da proteção do Pé Grande.

Isso porque, em release para a imprensa publicado em seu website, Ketchum apela para funcionários públicos e aplicadores da lei para reconhecerem imediatamente o Pé Grande como um povo indígena. “O governo deve reconhecê-los em todos os níveis como um povo indígena e imediatamente proteger seus direitos humanos e constitucionais contra aqueles que veem em suas diferenças físicas e culturais uma ‘licença’ para caçá-los, prendê-los ou matá-los”, escreve. [NBCNews, DailyMail, Estadao, DNADiagnostics]

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Autor: Natasha Romanzoti

tem 25 anos, é jornalista, apaixonada por esportes, livros de suspense, séries de todos os tipos e doces de todos os gostos.

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