5 boatos sobre o vírus da Zika que não passam de boatos

Por , em 29.02.2016

Embora não haja nenhuma prova absoluta de que o vírus da Zika esteja por trás da onda de microcefalia no Brasil e surtos de síndrome de Guillain-Barré em seis países diferentes, as principais autoridades de saúde do mundo estão quase certas de que esta relação é verdadeira.

“A cada dia que passa, a evidência de que ele é a causa destes problemas aumenta”, disse recentemente Thomas R. Frieden, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, órgão do governo dos EUA.

Bruce Aylward, que está liderando a resposta da Organização Mundial da Saúde, afirma: “Neste momento, o vírus é considerado culpado até que se prove o contrário”.

Mesmo assim, muitos rumores culpando outras causas potenciais surgiram recentemente, e as autoridades têm trabalhado duro para desmascarar os boatos. A seguir, você vê quais são as teorias mais proeminentes que estão surgindo nas redes sociais, juntamente com as respostas dos cientistas.

5. Os mosquitos geneticamente modificados são a verdadeira causa dos defeitos de nascimento?

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Esse som de zumbido que você está ouvindo é um “não”.

A empresa britânica Oxitec lançou mosquitos geneticamente modificados no Brasil em uma tentativa de controlar a dengue. Mas os surtos de microcefalia posteriores a isso ocorreram em lugares distantes. Por exemplo, a maior parte da liberação de mosquitos foi em Piracicaba, que fica a quase 3 mil quilômetros de Recife, onde a microcefalia é mais comum. Os mosquitos também foram liberados nas Ilhas Cayman, na Malásia e no Panamá, sem causar problemas do tipo.

Mosquitos voam menos de dois quilômetros em suas vidas. Além disso, apenas mosquitos machos foram liberados. Eles não mordem os seres humanos ou causam a propagação da doença, e foram geneticamente programados para morrer rapidamente.

4. Poderia um larvicida na água potável estar causando a microcefalia?

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Não.

Entomologistas têm taxado como “ridícula” a ideia de que o larvicida Pyriproxyfen poderia ter causado uma onda tão grande de defeitos de nascimento. Ele não ataca as células nervosas; o larvicida é um mímico químico de um hormônio dos insetos que sinaliza às larvas a parar de crescer, e hormônios de insetos não colocam os seres humanos em perigo.

O Pyriproxyfen foi aprovado nos Estados Unidos em 2001 e é vendido como um tratamento de pulgas para cães e gatos e como um spray de tapete para matar pulgas. Os bebês têm passado perto do material por anos sem dano aparente. E no Brasil e na Polinésia, a lesão cerebral ocorreu às crianças em muitas comunidades onde o larvicida não foi usado.

3. A culpa é das vacinas?

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Não é plausível.

Rumores culparam tanto um “lote ruim de vacina contra a rubéola” quanto a introdução de uma nova vacina contra a coqueluche no Brasil, ou o alumínio presente nesta vacina. Também não é plausível.

Não houve surto de rubéola entre as mulheres grávidas e nenhuma evidência de um “lote ruim”. Nenhuma vacina é usada apenas no nordeste do Brasil. A nova vacina contra a coqueluche tem sido usada desde a década de 1990 em muitos países. Ela foi introduzida porque uma versão mais antiga estava causando dor, febre e, em casos raros, convulsões. Não microcefalia.

2. E se outra doença está causando microcefalia e síndrome de Guillain-Barré?

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Evidências crescentes apontam para o Zika.

O surto de microcefalia começou em cidades brasileiras da região nordeste, onde os médicos já haviam visto milhares de pessoas com uma “doença misteriosa”, que mais tarde foi provada ser causada pelo vírus Zika. Embora não haja nenhum teste rápido para o Zika, os sintomas são facilmente reconhecidos – erupções cutâneas, olhos vermelhos, febre e dor nas articulações, em grande número de pacientes que quase nunca estão perigosamente doentes.

Embora inicialmente tenham diagnosticado de forma equivocada, os médicos brasileiros sabiam há meses que tinham um grande surto de uma doença incomum em suas mãos. A mesma coisa aconteceu em Yap Island na Micronésia em 2007 e na Polinésia Francesa em 2013.

Dentro de algumas semanas após a “doença misteriosa” ter aparecido, os médicos começaram a notar um aumento na paralisia em adultos – sintoma da síndrome de Guillain-Barré, uma doença auto-imune que pode ser desencadeada por infecções virais. Houve uma oscilação semelhante nos casos na Polinésia Francesa, em 2013, e os casos estão agora surgindo na Colômbia, El Salvador, Suriname, Venezuela e Martinica – sempre em sintonia com surtos da Zika. Em alguns casos, o vírus Zika foi encontrado no sangue ou na urina das vítimas.

Cerca de um ano após o surto ter começado no nordeste do Brasil, os casos de microcefalia começaram a aparecer entre os recém-nascidos da região. Patologistas no Brasil, Estados Unidos e Europa têm encontrado agora o vírus da Zika no tecido cerebral de fetos microcéfalos natimortos e abortados e no líquido amniótico em torno deles.

1. O Brasil não poderia estar apenas subestimando a microcefalia durante anos?

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É possível, mas não por margens suficientemente grandes para explicar o surto atual.

Alguns pesquisadores acreditam que o Brasil já relatou casos de forma imprecisa, mas não por uma grande margem. Definições de microcefalia variam, mas os países europeus e norte-americanos relatam aproximadamente entre um caso a cada 5.000 nascidos vivos e um caso a cada 10.000. Antes do aparecimento da Zika, o Brasil relatava um caso a cada 20.000 nascidos vivos – em outras palavras, a metade ou um quarto de quantos poderiam realmente ter acontecido.

Antes do surto, os sete estados no nordeste do Brasil, onde a microcefalia apareceu pela primeira vez, relatavam cerca de 40 casos de microcefalia em um ano. Em outubro, neurologistas de Recife, que normalmente viam bebês microcéfalos muito raramente, tiveram que lidar com o tratamento de cinco ou mais de cada vez. Até 17 de novembro, apenas os sete estados tiveram 400 casos notificados. Um mês depois, apenas um deles, Pernambuco, informou mais de 600.

Eventualmente, o Ministério da Saúde decidiu que os médicos estavam fazendo um “sobreregistro” dos casos. Por isso, em dezembro, as autoridades de saúde do país decidiram mudar sua definição para incluir apenas as crianças com cabeças com menos de 32 centímetros de circunferência na definição de microcefalia, em vez de 33, como era feito até então. Mas os casos continuaram a crescer. Mesmo a subestimação anterior não explicaria a enorme onda que se seguiu ao surgimento da Zika.

Espalhando os boatos

Rumores como estes geralmente surgem nos primórdios das epidemias com frequência. “Os rumores são a alma de qualquer epidemia”, afirma o Dr. Howard Markel, historiador médico da Universidade de Michigan, nos EUA.

Ele fornece vários exemplos: na Idade Média, a peste foi atribuída a judeus, que foram acusados ​​de envenenamento de poços. Quando a doença irrompeu na Chinatown de San Francisco, nos EUA, em 1900, as autoridades locais culparam as “dietas de arroz”. Um surto de cólera em 1892 em Nova York foi atribuído a peixes contaminados.

Nos primeiros dias da AIDS, rumores persistiram durante anos dizendo que a doença não acontecia devido a um vírus, mas que era uma “doença do estilo de vida gay”, e que o sistema imunológico era comprometido por uma combinação de promiscuidade sexual e drogas como o nitrato de amilo, teoricamente usadas pelos homens exaustos pelas noites nas discotecas. Quando descobriu-se que a AIDS também era difundida na África, os mesmos “negadores” culparam uma combinação de febres crônicas, perda de peso, diarreia e tuberculose.

Mas por que os rumores se espalham de forma tão eficaz?

Há três razões.

Primeiro, afirma Markel, porque muitos contêm algumas pitadas de verdade. Mosquitos geneticamente modificados foram lançados no Brasil e o larvicida foi realmente usado em algumas cidades.

Em segundo lugar, porque muitos rumores têm um bode expiatório conveniente. Doenças já foram atribuídas a grupos étnicos. Agora, corporações são as principais suspeitas. O Pyriproxyfen no Brasil foi feito pela Sumitomo, uma empresa química japonesa, e rumores sobre ele enfatizaram a parceria anterior da Sumitomo com a Monsanto, uma empresa americana vista com desconfiança por muitos ambientalistas.

Em terceiro lugar, porque alguns rumores são espalhados por pessoas proeminentes. O rumor sobre o larvicida foi iniciado por um grupo que se autodenomina “médicos das cidades pulverizadas”. Entre os que negavam a AIDS estavam Peter H. Duesberg, um biólogo molecular premiado, e Thabo Mbeki, que adotou a opinião do Dr. Duesberg enquanto presidente da África do Sul. [NY Times]

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