Óleos essenciais são essencialmente inúteis (ou prejudiciais)

Por , em 2.10.2019

Um estudo publicado no encontro anual da Sociedade de Endócrina dos Estados Unidos em 2018 mostrou que parece ser forte a ligação entre óleos essenciais e a ginecomastia em meninos pré-pubescentes.

A ginecomastia é um problema em que as mamas se desenvolvem demais em homens, normalmente como resultado de níveis muito altos de estrogênio, o hormônio feminino. Esse crescimento do tecido mamário é comumente observado em meninos pubescentes, mas é mais rara em meninos mais novos.

Ginecomastia assimétrica em homem adulto (esquerda)

Pesquisadores do Instituto Nacional de Ciências de Saúde Ambiental testaram o impacto de oito componentes que são comumente encontrados no óleo de melaleuca (árvore do chá) e de lavanda para estudar seus efeitos na atividade hormonal. O resultado aponta que esses óleos interferem nos hormônios.

“Nossa sociedade classifica os óleos essenciais como seguros (…). Entretanto, eles possuem uma quantidade diversa de substâncias e deveriam ser usadas com cuidado porque algumas desses substâncias são potenciais desreguladores endócrinos”

Uma pesquisa anterior, de 2007, já tinha apontado para a ligação do problema com o uso de óleos essenciais como lavanda e melaleuca. Este estudo mostrou que o desenvolvimento exagerado do tecido mamário em três meninos de 5 a 10 anos se resolveu quando os óleos essenciais presentes em shampoos, sabonetes, hidratantes e óleos para pele deixaram de ser usados.

Esses óleos podem ser usados rotineiramente em produtos de higiene e cosméticos, além de sabão para roupa e velas de aromaterapia. 

Falta de padrão de composição

Segundo informações da Universidade de Minnesota (EUA), um dos obstáculos desse tipo de pesquisa se deve à falta de padrão desses óleos. A composição deles é influenciada pela geografia e clima locais, depende também das estações e momento de colheita das partes da planta, além do modo de processamento, embalagem e armazenamento. “Elas são diferentes de drogas farmacêuticas que são produzidas sinteticamente para serem idênticas toda vez”, aponta o texto da universidade.

Os óleos essenciais podem ser alterados em busca da padronização, mas este processo faz com que ele deixe de ser natural. A Organização Internacional de Padrões dita características para cada óleo essencial que inclui várias concentrações aceitáveis de suas substâncias principais.

Placebo complicado

Outra dificuldade é conduzir estudos que testam dois grupos, um com o óleo e outro com placebo. Quando substâncias aromáticas são usadas, é muito difícil fazer as pessoas acreditarem que o placebo é a substância real.

Alguns pesquisadores já usaram máscaras ou outras barreiras para deixar os participantes “cegos”. Outros pesquisadores usaram essências alternativas sem propriedades terapêuticas. Além disso, pesquisas com aromas são complicadas porque as pessoas associam cheiros com experiências passadas, e isto torna muito subjetiva a percepção de aromas e seus efeitos em pessoas diferentes.

Dificuldade para conseguir fundos e aprovação para testes

Ainda segundo a Universidade de Minnesota, vários estudos convencionais de drogas são pagos pela indústria farmacêutica, mas há pouca motivação para essas companhias investirem em pesquisas com plantas naturais porque elas não podem ser facilmente patenteadas, limitando o potencial de lucro.

Há também a dificuldade em conseguir aprovação para fazer testes em humanos, já que o passo-a-passo convencional da ciência clínica é primeiro testar uma substância em laboratório, depois em animais e depois em humanos. Já os óleos essenciais têm sido usados por humanos há milhares de anos.

Resultado subjetivo

Por último, é difícil determinar exatamente o que causou o resultado observado. Nas terapias com óleos essenciais, os óleos às vezes são aplicados com uma massagem, o que torna difícil determinar se o benefício veio do óleo ou da massagem, ou de uma combinação dos dois. Além disso, óleos essenciais são compostos por centenas de substâncias, e é difícil determinar quais podem ter produzido o efeito.

[Medical News Today, University of Minnesota, The New England Journal of Medicine]

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