Paleontólogos encontram registros do dia em que os dinossauros morreram

Por , em 31.03.2019

Pesquisadores acabam de perceber que um sítio arqueológico nos EUA descoberto no fim dos anos 1970 é um verdadeiro museu a céu aberto do exato dia em que os dinossauros morreram.

Quando, em um belo dia sessenta e seis milhões de anos atrás, um enorme asteroide caiu em um mar raso perto do México, o impacto criou uma cratera de mais de 140 km de largura e jogou toneladas de terra no espaço. Estes destroços terrestres caíram no planeta em forma de gotículas de rocha e vidro derretidos. Peixes que nadavam nos mares dessa época acumularam essas bolhas de vidro em suas guelras enquanto assistiam a essa chuva bizarra que caía do céu. Ondas causadas pelo impacto jogaram esses animais em terra firme, depois mais ondas os enterraram sob o lodo.

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Milhões de anos depois, cientistas dos EUA recentemente desenterraram fósseis desses peixes extremamente especiais. Eles morreram nos primeiros minutos ou horas após o impacto do asteroide, de acordo com um artigo publicado na revista Proceedings da National Academy of Sciences, uma descoberta que causou grande alvoroço entre os paleontologistas.

O dia em que os dinossauros (e quase todo o resto) morreram

“Você está voltando ao dia em que os dinossauros morreram”, diz animado Timothy Bralower, paleoceanógrafo da Universidade do Estado da Pensilvânia, nos EUA, que está estudando a cratera do impacto e não estava envolvido no trabalho, em entrevista ao jornal The Washington Post.

Cerca de 3 em cada 4 espécies morreram na extinção do Cretáceo-Paleogeno, também conhecida como o evento K-Pg ou extinção K-T. Este evento ficou conhecido por acabar com os dinossauros, mas eles se foram com hordas de outros seres vivos. Criaturas de água doce e marinhas foram vítimas, assim como plantas e microorganismos, incluindo 93% do plâncton.

No final dos anos 1970, Luis e Walter Alvarez,  pai e filho cientistas da Universidade da Califórnia, nos EUA, examinaram uma camada geológica incomum entre os períodos Cretáceo e Paleogeno. O local estava cheia do elemento irídio, raro na crosta terrestre, mas não nos asteroides. Walter Alvarez é um dos autores do novo estudo.

Os fósseis encontrados agora, na cratera de Hell Creek, que se espalha por alguns estados americanos, representam os primeiros de seu tipo a serem encontrados. “Esta é a primeira assembleia de morte em massa de grandes organismos que alguém encontrou associada ao K-T. Em nenhuma outra seção da fronteira K-T na Terra, você pode encontrar uma coleção desse tipo consistindo de um grande número de espécies representando diferentes idades de organismos e diferentes fases da vida, todas as quais morreram ao mesmo tempo, no mesmo dia”, diz o autor do estudo, Robert DePalma, em um texto publicado no site da Universidade da Califórnia.

Tesouros na rocha

DePalma, estudante de doutorado na Universidade do Kansas, começou a escavar o local na formação Hell Creek, na Dakota do Norte, em 2013. Desde então, ele e outros paleontólogos encontraram diversos tesouros. Desde montes de esturjões e peixe-espátula fossilizados com esferas de vidro ainda em suas brânquias, animais parecidos com lulas, chamados de amonitas, dentes de tubarão e restos de lagartos aquáticos predadores chamados mosassauros, até mamíferos mortos, insetos, árvores e um triceratops.

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Os cientistas encontraram também penas fósseis longas, trilhas de dinossauros e tocas de mamíferos pré-históricos. Eles encontraram as esferas de vidro até mesmo em âmbar fossilizado, aquela mesma seiva de árvore utilizada para reviver os dinossauros em Parque dos Dinossauros.

“O sítio tem todos os sinais de marca registrada do impacto de Chicxulub (localidade mexicana onde acredita-se que o asteroide atingiu a Terra). É fascinante”, diz Bralower ao WP. Estes sinais incluem as contas de vidro e muito irídio. Na camada geológica logo acima do depósito de fósseis, as samambaias mostram um ecossistema em recuperação.

No início dos anos 90, os pesquisadores descobriram a cicatriz deixada pelo asteroide – uma cratera na península de Yucatán, no México. O impacto foi nomeado em homenagem à cidade vizinha de Chicxulub. As formas com as quais o impacto do Chicxulub pode ter causado tantas mortes são abundantes: ele pode ter envenenado o planeta com metais pesados, transformado o oceano em ácido, envolto a Terra na escuridão ou incendiado tempestades de fogo globais, seu impacto pode ter erupções gigantescas em vulcões, etc.

Museu a céu aberto

A Hell Creek fica a mais de 3 mil quilômetros da cratera Chicxulub. Os peixes encontrados lá, pressionados na lama, são notavelmente bem preservados. “É o equivalente a encontrar pessoas em posições de vida enterradas por cinzas depois de Pompeia”, compara Bralower. Na época dos dinossauros, o local de Hell Creek era um vale fluvial. O rio alimentava um mar interior que ligava o Oceano Ártico a um Golfo do México pré-histórico. Depois que o asteroide atingiu, as ondas sísmicas de um terremoto de magnitude 10 a 11 se espalharam por esse mar, de acordo com os autores do estudo.

Elas causaram tsunamis, mas também algo que é conhecido como ondas de seiche, ondas que se formam em corpos de água fechados e vão e vem, às vezes vistas em miniatura em uma banheira. As ondas de seiche podem ser sintomas de tremores muito distantes – como as ondas de seiche que se agitaram nos fiordes noruegueses em 2011, após o terremoto gigante que teve seu epicentro perto do Japão.

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Ondas de Seiche que atingiram o mar interior na região onde hoje está a Hell Creek alcançaram 9 metros, afogando o vale do rio em um pulso de água, cascalho e areia. A chuva de pedras e vidro se seguiu. As pequenas rochas de vidro cavaram “pequenos funis nos sedimentos estabelecidos pelas ondas de seiche, o que dá certeza de que elas estavam descendo quando as ondas ainda estavam subindo o rio”, explica Jan Smit, paleontólogo da Universidade Vrije, em Amsterdã, que também foi um dos primeiros descobridores do irídio nos limites do K-Pg.

“É como um museu do final do Cretáceo em uma camada de um metro e meio de espessura”, define Mark Richards, professor emérito de ciências terrestres e planetárias da Universidade de Berkeley, que agora é reitor e professor de ciências da terra e do espaço na Universidade de Washington.

“Temos uma incrível variedade de descobertas que, no futuro, serão ainda mais valiosas. Temos depósitos fantásticos que precisam ser estudados de todos os diferentes pontos de vista. E eu acho que podemos desvendar a sequência de ejetos de entrada do impacto de Chicxulub em grande detalhe, o que nós nunca teríamos sido capazes de fazer com todos os outros depósitos ao redor do Golfo do México”, completa Smit. [Washington Post, New York Times, Universidade da Califórnia – Berkeley]

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