Pesquisadores da USP e de Harvard desvendam o processo de despigmentação capilar

Por , em 24.01.2020

Uma pesquisa realizada em parceria entre cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, com um grupo de pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA), descobriu por acidente como acontece o processo de despigmentação capilar e como impedir este problema. A coordenação do trabalho foi feita pela professora de Biologia Regenerativa Ya-Chieh Hsu, e os resultados foram divulgados na revista Nature

A humanidade já percebeu há muito tempo que uma pessoa que passa por um trauma ou estresse muito grande fica com mais cabelo branco, mas até agora não se sabia exatamente por que isso acontece. É interessante notar que o fenômeno não é exclusivo de humanos, e que também acontece com outros mamíferos como ratos de laboratório. 

O estudo em questão obteve a resposta para este problema milenar quando estudava a consequência da dor em ratos da linhagem Black-C57, que têm pelagem completamente escura. Os pesquisadores injetaram uma substância chamada resiniferatoxina para ativar um receptor de dor nos animais. Quatro semanas depois da injeção da toxina, foi observado que os animais estavam com os pelos completamente brancos. O experimento foi repetido algumas vezes e os resultados foram consistentes. 

O processo de despigmentação

Quando há dor, o sistema nervoso simpático faz o coração bater mais rápido, a pressão arterial subir, a respiração acelerar e as pupilas dilatarem. Ou seja, há uma resposta típica de estresse no corpo. 

“Aqui reportamos que, em ratos, estresse agudo causa o embranquecimento de pelos através da perda de células-tronco de melanócitos”, escrevem os autores no trabalho. Eles apontam que este processo é independente do ataque imunológico ou de hormônios de estresse adrenal. Ao invés disso, a despigmentação capilar resulta da ativação dos nervos simpáticos que inervam as reentrâncias das células-tronco dos melanócitos existentes dentro do bulbo capilar.

São essas células as responsáveis pela geração de células produtoras de melanina, o pigmento que dá cor aos fios capilares.  

Sob condições de estresse, a ativação desses nervos simpáticos leva à grande liberação do neurotransmissor noradrenalina. Isso faz com que as células-tronco de melanócitos em repouso se proliferem rapidamente e que também se esgotem rapidamente. Em outras palavras, o estresse envelhece as células-tronco melanocíticas. 

Uma vez que isso acontece, o fio capilar não recupera nunca mais a sua cor original, e sempre será branco. O dano é permanente. 

Como impedir o processo

Depois que os pesquisadores injetaram a resiniferatoxina nos ratos, eles foram tratados com guanetidina, um anti-hipertenso capaz de inibir a neurotransmissão pelas fibras simpáticas. Assim o processo de embranquecimento foi bloqueado. 

Outra forma de interromper a despigmentação foi pela remoção cirúrgica das fibras simpáticas dos animais. Nas semanas seguintes ao procedimento o pelo parou de mudar de cor. 

Proteína CDK

Os cientistas também encontraram os genes que mais se alteram com o estresse, e um deles se destacou. Ele codifica uma proteína chamada CDK, a quinase dependente de ciclina, enzima que participa da regulação do ciclo celular. 

Eles então repetiram o procedimento de indução da dor e ao mesmo tempo trataram os animais com um inibidor da enzima CDK. O resultado foi que o processo de envelhecimento precoce das células-tronco melanocítica foi prevenido, e os pelos pararam de ficar grisalhos. 

Parceria USP-Harvard

Esta valiosa parceria aconteceu porque o pesquisador brasileiro Thiago Mattar Cunha passou os anos de 2018 e 2019 na instituição americana como professor visitante, com bolsa oferecida pelo programa Capes-Harvard. Ao conversar com os colegas de Harvard, ele ficou sabendo que um grupo de pesquisadores da universidade havia atingido os mesmos resultados que o grupo dele já havia conseguido na USP, também de forma acidental. A professora Hsu então o convidou a integrar um projeto de investigação do fenômeno. [Nature, Governo do Estado de São Paulo, BBC]

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