6 passos para acabar com qualquer teoria da conspiração

Por , em 26.08.2017

Combater teorias de conspiração que se espalham pela Internet é muitas vezes uma tentativa frustrante. Em geral, isso envolve detalhes específicos de algum tema científico, histórico ou tecnológico e leva muito tempo para que possamos assimilar tanto a imagem geral como seus pormenores e detalhes. Ao mesmo tempo em que alguém refuta uma nova desinformação, os teóricos conspirativos já apresentaram mais 12 reivindicações lacunares, em um jogo interminável de gato e rato. Há, portanto, uma grande necessidade de combinar esses contrapontos detalhados com objeções mais amplas, que ataquem a estrutura geral das teorias da conspiração.

As seis estratégias para desmentir qualquer teoria da conspiração, que discutimos a seguir, abordam muitos pontos de vista diferentes sobre o tema. A objeção do tipo “sem escapes” questiona como milhares de pessoas podem conduzir planos complexos e malignos sem que haja qualquer vazamento. A objeção à “lacuna de evidências” interroga por que há tantas evidências de conspirações que se mostram verdadeiras, mas quase nenhuma para teorias comuns de conspiração. A objeção às “capacidades inconsistentes” pergunta por que os perpetradores são considerados altamente inteligentes e eficazes, mas não podem tirar sites e vídeos do ar, ou organizar “acidentes” para se livrar das teorias da conspiração.

A objeção do tipo “horizonte de previsão” discute como as complexidades da realidade dificultam que façamos previsões altamente precisas para planos detalhados de conspiração. Depois, a objeção do “método-objetivo incompatível” aponta que há muitas formas mais fáceis de os perpetradores atingirem seus objetivos do que os caminhos complexos indicados pelas teorias da conspiração. Finalmente, a objeção “não falsificável” conclui que essas teorias são muitas vezes consistentes quanto às evidências a favor e contra elas, tornando-as bastante impotentes enquanto explicações para qualquer coisa.

# 1: A objeção “sem escapes”

Em “Poor Richard’s Almanack” (1735), Benjamin Franklin escreveu que “três pessoas podem guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas”. O que Franklin quis dizer é que é os seres humanos têm dificuldade para manter informações sigilosas. Quanto mais pessoas souberem de um segredo, mais risco existe de esse segredo ser exposto. Isso ocorre porque há mais pessoas que podem ser enganadas, chantageadas, subornadas ou de outra forma persuadidas a desistir. É suficiente que um único envolvido quebre o sigilo para destruir toda a veracidade em questão.

Existem muitos exemplos de vazamentos que expuseram conspirações reais. Por exemplo, Bill Clinton não conseguiu manter seu caso com Monica Lewinsky em segredo mesmo que ele fosse o homem mais poderoso da Terra na época. A NSA não conseguiu esconder a missão da vigilância em massa. Há muitos outros exemplos.

Então, por que não há informações vazadas sobre esses autores malignos nas mais comuns teorias de conspiração? Esta questão torna-se ainda mais pertinente quando percebemos que a escala dessas teorias provavelmente envolveria pelo menos centenas ou milhares de pessoas. A resposta, é claro, é que essas teorias de conspiração provavelmente estão inteiramente equivocadas. Pedir a seus proponentes que expliquem a ausência de vazamentos sobre a cabala, por exemplo, que envolveria tantas pessoas e contrasta com a situação de Clinton ou NSA, é uma abordagem produtiva para examinar sua posição.

# 2: A objeção “lacuna de evidências”

Conspirações reais já descobertas envolvem investigadores que, quase literalmente, afogaram-se em meio às provas. Há, em geral, tantas evidências que é difícil para um único indivíduo ou mesmo para os próprios investigadores obterem um conhecimento detalhado o suficiente de todos os aspectos envolvidos.

Por exemplo, Manning vazou 92 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão, 392 mil sobre a guerra no Iraque e muitos outros arquivos sobre diferentes assuntos e ocorrências. No total, estima-se que tenham sido divulgados 700 mil documentos. Para a vigilância em massa da NSA, o vazamento de Snowden pode ter ocasionado a quebra de sigilo em mais de um milhão de arquivos (embora ninguém realmente saiba quantos havia de fato). O escândalo do Watergate envolveu assaltantes que foram presos, rastros de dinheiro que puderam ser perseguidos e mapeados, confissões e várias de fitas de áudio incriminatórias. O caso do IB revelou que o governo sueco tinha uma agência secreta de inteligência militar e de contrainteligência que o parlamento desconhecia. Neste, as pessoas com tendências comunistas eram monitoradas e registradas. Até mesmo agentes secretamente infiltrados em suas organizações tentaram provocá-las a cometer crimes. Esta conspiração foi denunciada por dois jornalistas e um fotógrafo que conseguiram colocar as mãos em evidências cruciais, ao tropeçarem, no caminho, com um funcionário descontente. Eles passaram meses investigando e fotografando membros do IB e até mesmo interceptaram mensagens enviadas entre agentes de campo e a sede da organização.

A maior parte das teorias de conspiração, por outro lado, tem pouca ou nenhuma evidência real. Muitas vezes, elas se baseiam em citações científicas fora de contexto, confundindo a física básica sobre a construção das teorias, saltando por casos óbvios de falhas de comunicação ou similares. São essencialmente baseadas em alegadas “provas” que não valem quase nada.

Assim, existe uma “lacuna de evidências” entre conspirações reais e teorias de conspiração. As conspirações reais que foram expostas têm uma quantidade de evidências disponíveis, mas as teorias de conspiração não têm nada ou muito pouco em termos de evidências que as respaldem.

Agora, pode-se argumentar que as conspirações aqui expostas não representam todas as conspirações em absoluto. Isso é, sem dúvida, verdade: provavelmente existem conspirações que se realizaram em completo segredo, jamais revelado. Mas isso não se encaixa na situação geral, porque a maioria se baseia em falsificações demonstráveis. Assim, dizer que houve conspirações reais não é uma objeção válida para apontar esses erros.

# 3: a objeção “capacidades inconsistentes”

As teorias da conspiração postulam que as pessoas malvadas por trás de tudo são quase sempre muito inteligentes e eficazes. Nunca cometem erros, cobrem todas as possibilidades, esperam todas as contingências e lidam com todos os riscos. Eles escondem ou destroem quaisquer provas e até assassinam pessoas que possam expor a verdade.

No entanto, essas mentes malignas não são suficientemente experientes para remover vídeos do Youtube ou tirar sites que as expõem. Elas nem sequer conseguem eliminar os mais proeminentes teóricos da conspiração e apenas os deixam lançar milhares de vídeos e artigos sobre os detalhes íntimos da alegada conspiração. Uma defesa comum é que, se os teóricos da conspiração fossem encontrados de repente assassinados, a conspiração seria comprovada. No entanto, conspiradores altamente engenhosos poderiam facilmente arquitetar planos para que pareçam um acidente ou fruto de uma causa natural. Além disso, se eles não são expostos por milhares de horas de vídeo e centenas de milhares de artigos, comentários de blogs e postagens de fóruns, é improvável que eles seriam expostos só porque alguns teóricos de conspiração famosos morreram de forma “natural” ou tiveram um “acidente” “.

Assim, há uma inconsistência extremamente peculiar nas habilidades dos conspiradores. Eles são extremamente inteligentes e nunca cometem erros ou são incrivelmente incompetentes?

# 4: A objeção do “horizonte de previsão”

O mundo é complexo e às vezes difícil de prever. As teorias da conspiração frequentemente envolvem planos com minúcias e detalhes, em uma complicada enrolação que se estende ao longo de meses, anos ou mesmo décadas. No entanto, há muitas coisas que podem dar errado nisso. Um agente estratégico desenvolve alguma doença, serviços se quebram, as pessoas mudam e se movem, as leis se alteram, edifícios são reconstruídos, há surtos de doenças, conflitos armados, melhores protocolos de segurança, alguém que deixa de trabalhar e assim por diante. Há literalmente milhões de imprevistos que podem interferir em um plano maligno. Assim, os perpetradores têm, pelo menos, um risco moderado de falhar e serem pegos. Em muitos casos, ser pego eliminaria completamente qualquer possibilidade de cumprir os objetivos.

Assim, muitas teorias de conspiração não são realistas porque existem muitas maneiras pelas quais os planos podem ir por água abaixo. Provavelmente também existe um “horizonte de previsão”, onde as complexidades do mundo fazem das previsões detalhadas e precisas, na prática, difíceis ou mesmo impossíveis. Afinal, muitos especialistas não conseguem prever com precisão a economia ou as relações entre países ao longo do tempo. Em contraste, as teorias de conspiração envolvem autores que fazem previsões altamente precisas ou mesmo infalíveis, sem levar em conta essas complicações.

# 5: A objeção do “método-objetivo incompatível”

Os teóricos da conspiração muitas vezes olham para grandes e assustadores eventos e tentam argumentar para encontrar uma explicação igualmente suntuosa e de alto impacto. No entanto, esta é apenas a caça à anomalia e a ideia resultante é muitas vezes muito fraca, especialmente quando se considera como o evento alcançaria os objetivos propostos pelos perpetradores.

Os defensores da terra plana podem encontrar raciocínios desleixados e bizarros para contrapor evidências científicas que contrariam sua posição. No entanto, eles vacilam quase imediatamente quando respondem à questão: de que forma fazer com que a humanidade pense que a terra é redonda possa ajudar alguém atingir seus objetivos?Na verdade, por que, na Terra, a elite governante jamais se importou em gastar tanto tempo, dinheiro e recursos para esconder o “alegado” fato de que a Terra é realmente plana? Quaisquer que sejam suas racionalizações, os participantes não têm nenhuma explicação plausível (ou mesmo coerente) para isso.

Se o governo dos EUA estava por trás do 11 de setembro para garantir um pretexto à guerra do Oriente Médio, por que se lançou a ela quase uma década depois? por que não apenas ir à guerra? Eles conseguiram fazer tudo isso e ainda empreender diversas operações internacionais questionáveis ​​sem jamais precisar simular um ataque terrorista. Essa é também uma conspiração muito complicada e que envolve vários fatores, como terroristas oriundos de países que nunca foram invadidos e assim por diante. Por que não apenas explodir um prédio e acabar com tudo?

Se você ou os próprios teóricos da conspiração podem facilmente inventar um plano melhor para atingir o objetivo dos perpetradores do que o plano em si, utilizado na teoria da conspiração, algo está terrivelmente errado nessa resposta.

# 6: A objeção “infalsificável”

Como se observou acima, os teóricos da conspiração postulam que os perpetradores de conspiração malignas são tão eficazes que eliminam quase todas as evidências de suas ações. Ainda mais enganosamente, eles insistem que a evidência contra a teoria da conspiração foi fabricada pelos perpetradores para cobrir seus rastros, ou que os cientistas que coletam essas evidências são apenas parte do esquema.

Assim, os teóricos da conspiração se passam por imparciais. Como nenhuma evidência pode agitar suas crenças, eles se colocam numa posição de infalíveis. Seria uma postura consistente com todos os resultados e descobertas. Além disso, um mundo onde existem tais conspirações e um onde elas não existem são idênticos. Isto significa que a alegada conspiração é, de fato, irrelevante. Perguntar por que alguém deve acreditar em alegações infalíveis pode ser uma maneira útil de abordar as teorias de conspiração propostas.

Conclusão

Essas seis objeções provavelmente não podem refutar todas as possíveis teorias de conspiração apresentadas por seres humanos. No entanto, elas devem ser sólidas o suficiente quando juntas para enfraquecer muitas dessas teorias. As vantagens desta abordagem mais geral é que ela pode ser aplicada a muitas teorias de conspiração diferentes: com ela, uma pessoa cética não precisa ter conhecimento detalhado de, por exemplo, engenharia ou biologia molecular ou qualquer assunto que a teoria da conspiração envolva. [Debunking Denialism]

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