Novo estudo genético descobre que a meritocracia é uma mentira

Por , em 15.10.2018

Um novo estudo genético permitiu a confirmação de algo que muitos de nós suspeitávamos, mas nunca pudemos confirmar: dinheiro supera DNA.

Crianças geneticamente bem-dotadas são distribuídas quase igualmente entre famílias de baixa renda e alta renda. Sucesso não.

Crianças menos bem-dotadas em famílias de alta renda se formam na universidade a taxas mais altas do que as crianças mais talentosas de famílias de baixa renda.

As conclusões da pesquisa podem ser lidas (em inglês) neste artigo.

Os números são chocantes

Entre as pessoas cujo genoma possui um índice genético que os pesquisadores associaram ao desempenho educacional, apenas cerca de 24% das nascidas de pais de baixa renda se formam na faculdade.

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Já a taxa de graduação das pessoas com pontuações genéticas semelhantes que têm a sorte de nascer em uma família de alta renda é de 63%.

Isso é ainda pior quando pensamos na conclusão do outro lado da escala de pontuação genética: cerca de 27% das crianças menos bem-dotadas que nascem de pais de alta renda se formam na faculdade.

Isso significa que eles têm pelo menos a mesma probabilidade, ou uma probabilidade maior, de se formarem na faculdade do que os alunos de baixa renda mais talentosos.

O que isso significa, na vida real?

A aplicação da genética à economia é um campo novo, com algumas limitações. Mais notavelmente, neste estudo os pesquisadores foram forçados a se concentrar em pessoas brancas, pois os dados genômicos existentes vêm predominantemente de indivíduos de descendência europeia.

Ainda assim, os resultados já começam a expor verdades dolorosas. Por exemplo, contradizem a concepção popular da “meritocracia”: a ideologia política ou modelo de hierarquização baseado nos méritos pessoais de cada indivíduo. Por conta própria, não parece que aqueles que têm mais méritos (os mais trabalhadores, mais dedicados, mais bem-dotados intelectualmente etc.) predominam na sociedade.

“Isso vai contra a narrativa de que existem diferenças genéticas substanciais entre as pessoas que nascem em famílias abastadas e as que nascem na pobreza”, explica Kevin Thom, economista da Universidade de Nova York (EUA). “Se você não tem recursos de família, até as crianças brilhantes – as crianças naturalmente bem-dotadas – terão que enfrentar batalhas difíceis”.

“O potencial deles está sendo desperdiçado. E isso não é bom para eles, mas também não é bom para a economia”, completou seu colega de estudo, o economista Nicholas Papageorge da Universidade Johns Hopkins (EUA). “Todas essas pessoas que não foram para a faculdade com essas altas pontuações genéticas, não poderiam ter curado o câncer?”.

Metodologia

A análise de Thom e Papageorge se baseia nas descobertas de um dos maiores estudos genômicos realizados até o momento.

Publicado por uma equipe de cientistas com uma dúzia de colaboradores na revista Nature Genetics em julho, é o mais recente resultado de um longo e contínuo esforço para levar a análise genética às ciências sociais.

Esse levantamento identificou milhões de pares de bases individuais em 1.131.881 genomas em busca de evidências de correlações entre genes e anos de escolaridade concluídos. Eles sintetizaram os resultados em uma única pontuação que os cientistas podem usar para prever realizações educacionais com base em fatores genéticos.

Thom e Papageorge aplicaram esse índice em cerca de 20.000 pessoas nascidas entre 1905 e 1964 que forneceram seu DNA juntamente com seus dados, o que permitiu que os economistas atribuíssem conquistas acadêmicas e econômicas dos indivíduos à sua genética.

Gene + ambiente

A principal descoberta você já conhece: é de que nascer rico é melhor do que nascer talentoso. Mas esse simples achado torna-se mais interessante à medida que passamos a entender o que representa e as maneiras importantes pelas quais não explica tudo.

Estudos alimentados por enormes conjuntos de dados genéticos permitem que os economistas levem em conta os ambientes em que as pessoas cresceram. Tentativas anteriores de separar o potencial acadêmico das vantagens dadas para crianças de famílias abastadas dependiam de medidas como testes de QI, que são influenciadas pela educação, ocupação e renda dos pais.

Tais testes não podem ser administrados no momento do nascimento ou durante a infância, antes que pais de alta renda tenham dado um começo importante a seus filhos pequenos, alimentando-os bem, lendo para eles e os matriculando em mais atividades.

“Duas pessoas que são geneticamente semelhantes podem ter pontuações surpreendentemente diferentes no teste de QI, porque as mais ricas investiram mais em seus filhos”, esclarece Papageorge.

A análise do novo estudo não depende de um único “gene inteligente”. Algumas das codificações genéticas individuais influenciam traços como o desenvolvimento do cérebro fetal e a secreção de neurotransmissores ao longo da vida, por exemplo. E cada uma tem um pouco de impacto na realização profissional de um indivíduo. Em conjunto, as variações genéticas explicam 11 a 13% da diferença no desempenho acadêmico entre as pessoas.

A questão é que essas variações genéticas são difíceis de separar do ambiente. Elas acabam explicando mais diferenças de realização profissional porque refletem os genes que tiveram mais sucesso em determinadas condições que os indivíduos estavam crescendo.

Conclusão sombria?

Quando o índice genético de Thom e Papageorge foi testado entre genomas de irmãos, os resultados indicaram que até um quarto da variação na pontuação pode ser devido a forma como o código genético se relaciona com fatores ambientais.

Por exemplo, pode haver genes associados ao comportamento parental que criam um ambiente propício ao sucesso do filho.

As crianças com esse gene tenderiam a ter sucesso na escola não porque seu DNA as ajuda diretamente a estudar, mas porque elas possuem tanto o gene quanto um ambiente favorável ao sucesso na casa de seus pais.

É um lembrete de que a descoberta principal do estudo também é sua maior limitação: genes não definem tudo, mas influenciam tudo. A maior parte das realizações não pode ser explicada somente por fatores genéticos. Já fatores ambientais, como a renda dos pais, por outro lado… [ScienceAlert]

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