Brasileiros descobrem inédito sistema de anéis em asteroide

Por , em 26.03.2014

Anéis não são tão incomuns no sistema solar, já que Júpiter, Saturno, Urano e Netuno contam com um sistema de anéis, o mais espetacular deles sendo o de Saturno. O que ninguém sonhava, no entanto, nem nos pesadelos mais loucos, era que um asteroide pudesse ter um.

Em uma observação que não durou mais que 20 segundos, usando pelo menos sete telescópios diferentes, os astrônomos descobriram um sistema de anéis orbitando o asteroide Cariclo, uma pedra com cerca de 250 km de diâmetro que orbita entre Saturno e Urano, bem próximo de Urano, e que faz parte de um grupo chamado Centauros. A descoberta foi anunciada em uma conferência no Brasil, nas dependências do Observatório Nacional.

O próprio Cariclo é uma descoberta relativamente recente. Com um nome oriundo da mitologia grega (de uma uma ninfa filha de Apolo e esposa do centauro Quíron), Cariclo foi descoberto em 1997, e por enquanto é o maior Centauro já descoberto. Em 2001, um estudo fotométrico não conseguiu determinar se Cariclo tinha rotação, mas observações na faixa do infravermelho conseguiram dizer que ele tinha água congelada.

Assim, aproveitando uma ocultação prevista para o dia 3 de junho de 2013, em que Cariclo passaria em frente da estrela UCAC4 248-108672, visível somente no hemisfério sul, pelo menos sete telescópios foram apontados para ele para uma observação simultânea, esperando que a ocultação fornecesse alguma nova informação sobre o asteroide. O que ninguém esperava era que o brilho da estrela diminuísse um pouco antes e um pouco depois da passagem.

Combinando as observações, foi possível construir uma imagem detalhada do asteroide, bem como a forma, largura e orientação dos anéis. O sistema consiste de dois anéis densos, com raio orbital de 391 km e 405 km e largura de 7 e 3 km respectivamente, separados por um intervalo de 8 km. Os anéis provavelmente se formaram a partir dos restos de uma colisão anterior, e tem os nomes provisórios de Oiapoque e Chuí.

A descoberta do sistema de anéis também explica uma diminuição de Cariclo entre 1997 e 2008, já que neste período o anel estava “de borda” para nós. Neste período de diminuição, a assinatura de água no espectro luminoso havia desaparecido, o que indica que provavelmente esta é a composição dos anéis.

O Dr. Martin Dominik, da Universidade de St. Andrews, conta que, durante os 20 segundos do trânsito, câmeras supersensíveis de alta velocidade foram usadas para registrar 10 imagens por segundo em um dos telescópios do observatório da ESO de La Silla, no Chile. O autor do trabalho científico, o astrônomo brasileiro Felipe Braga-Ribas, do Observatório Nacional, acredita que, além dos anéis, deve haver mais uma pequena lua aguardando para ser descoberta em torno de Cariclo.

Os Centauros são asteroides com órbita bastante instável por causa da proximidade com os gigantes Saturno e Urano, originados provavelmente do Cinturão de Kuiper, mudando de órbita para o intervalo entre Saturno e Urano, até que algum dia acabam arremessados para fora do sistema solar, ou então em direção ao sistema solar interior, onde se tornam um cometa, colidem com o sol, ou com um dos planetas. [ESO, Firetrench]

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7 comentários

  • Maria De Lourdes Bonello:

    Muito feliz por saber de brasileiros envolvidos nesta importante descoberta. Sucesso aos mesmos!

  • Toni Cruz:

    Compartilho pelo fato em si e por ter sido por brasileiro.*

  • Cesar Grossmann:

    Se alguém estiver querendo olhar a beleza de artigo publicado na Nature, a ESO disponibilizou ele aqui.

    Uma coisa que eu não sabia, tem dois observatórios brasileiros envolvidos na observação da ocultação, o Observatório da Universidade Estadual de Ponta Grossa, e o Observatório Pico dos Dias, do Laboratório Nacional de Astrofísica.

    • Dave Said:

      Sem querer bancar o “Prof. Pasquale”, mas no terceiro paragrafo você diz ” Cariclo foi descoberto em 1997, e por enquanto é o maior Centauro já descoberto.” Acredito que você quis dizer o maior asteroide… Abraço!

    • Cesar Grossmann:

      É um asteroide do grupo “Centauros”, não sei o nome do recurso estilístico aqui, nem tenho certeza dele estar correto, mas aí está . Acho que tenho a aprovação do professor Cipro Neto nesta…

  • Andre Luis:

    Descoberta brilhante! Orgulho dela ser brasileira, e eu sinceramente nunca imaginei esta possibilidade, de um asteroide ter anéis. Esta imagem da matéria é artificial né? Já tem alguma imagem real deste asteroide e seu sistema de aneis?

    • Cesar Grossmann:

      É uma ilustração feita por um artista. Na Wikipedia os créditos vão para ESO/L. Calçada/M. Kornmesser/Nick Risinger (skysurvey.org).

      Teria que fazer as contas, para ver se dá para fotografar este asteroide com o Hubble. Afinal de contas, ele fica um pouco mais próximo que Plutão, embora seja também menor que o mesmo.

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