Acabamos de clonar macacos e humanos podem ser os próximos

Por , em 25.01.2018

Cientistas chineses conseguiram clonar primatas pela primeira vez utilizando o mesmo método que criou a ovelha Dolly, duas décadas atrás.

Segundo Mu-ming Poo, diretor do Instituto de Neurociências da Academia Chinesa de Ciências, as macacas – sim, ambas são do sexo feminino – são saudáveis e estão se desenvolvendo normalmente. Com sete semanas de idade, elas foram nomeadas Zhong Zhong e Hua Hua, a partir da palavra “Zhonghua”, que significa “nação chinesa”.

Tal avanço nos deixa mais próximos de clonar humanos, embora os pesquisadores tenham enfatizado que não têm intenção de fazer isso.

Em vez disso, o objetivo dos cientistas é criar macacos clonados que podem ser usados para estudar doenças genéticas humanas.

O método “Dolly”

Os pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências utilizaram uma técnica de clonagem chamada “transferência nuclear de células somáticas” (TNCS).

Ela envolve remover o núcleo que contém o DNA de um óvulo fertilizado, inserindo em seu lugar o núcleo da célula somática de um doador.

O óvulo conterá uma cópia exata do genoma do doador, e se for implantado em uma barriga de aluguel, a prole final será um clone.

Dolly, nascida em 1996, foi o primeiro animal clonado usando esta técnica, tendo morrido em 2003 aos 6 anos de idade. Mais de 20 espécies animais, incluindo vacas, porcos e cães, já foram clonadas com TNCS com sucesso. Estudos apontam que os clones produzidos por este método são tão sadios quanto seus primos não clonados.

Em primatas

Fazer com que esse mesmo processo funcione em primatas não foi uma tarefa simples, no entanto. Quando os pesquisadores tentaram usar o método “Dolly” em macacos, nenhuma gravidez durou mais de 80 dias.

O principal obstáculo provavelmente era que os núcleos transferidos não estavam devidamente programados para apoiar o desenvolvimento embrionário.

Na última tentativa, a equipe chinesa implantou duas enzimas críticas que removeram a memória epigenética dos genes das células. Este passo extra permitiu que o desenvolvimento prosseguisse.

A taxa de sucesso foi extremamente baixa, contudo. Usando células do tecido conjuntivo de fetos de Macaca fascicularis como doadoras, os pesquisadores criaram 79 óvulos clonados, que foram implantados em 21 barrigas de aluguel. Seis gestações ocorreram, sendo que somente duas foram desenvolvidas até o final, resultando em Zhong Zhong e Hua Hua.

Os pesquisadores também tentaram clonar células de macacos adultos, com menos sucesso. De 22 gestações, só duas se desenvolveram até o final, mas os clones morreram logo após o nascimento. É provável que as células adultas sejam mais difíceis de reprogramar do que as fetais, mais flexíveis.

De olho no objetivo

É possível que, com o tempo, os cientistas ajustem seus métodos e consigam criar dezenas de clones. O ideal seria ter um grande número de macacos geneticamente idênticos que serviriam como modelos para doenças humanas e outras condições, ajudando os pesquisadores a desvendar questões complexas – por exemplo, como fatores ambientais podem provocar câncer.

Ter uma população de primatas geneticamente idênticos seria um modelo muito poderoso para estudar mecanismos subjacentes às doenças e potenciais curas.

Alguns pesquisadores conseguiram clonar primatas não humanos nas últimas duas décadas usando outras técnicas, mas a TNCS é um grande avanço, pois provavelmente seria mais fácil de se reproduzir em um número maior.

Também poderia ser melhor acoplada a técnicas de edição de genes, como a CRISPR, para pesquisas futuras em doenças ou mutações genéticas específicas.

Ética

Sonhos à parte, a questão moral de tal pesquisa poderia obviamente limitá-la.

“É uma análise de custo-benefício”, disse Kevin Sinclair, biólogo de desenvolvimento da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, que não esteve envolvido com o último trabalho de clonagem. Para avançar com o estudo de doenças usando macacos clonados, os cientistas provavelmente precisarão justificar caso a caso.

Certos países, incluindo os EUA, têm diretrizes rígidas para controlar a pesquisa em primatas devido a preocupações éticas sobre a experimentação em nossos parentes próximos. Por exemplo, toda a pesquisa biomédica em chimpanzés foi encerrada nos EUA, e todos os chimpanzés de laboratório estão sendo lentamente aposentados.

Uma vantagem, no entanto, é que essa abordagem de clonagem poderia eventualmente ajudar a salvar primatas ameaçados. Sinclair argumenta que, em situações em que a destruição do habitat deixou apenas um pequeno número de primatas, os cientistas poderiam obter e congelar suas células somáticas para armazenamento em bancos de genes.

Muito trabalho pela frente

Além da questão ética, para que tais clones possam ser usados em pesquisas médicas, diversos aspectos da técnica precisam ser melhorados.

“Do ponto de vista científico, os avanços são significativos. Mas, de uma perspectiva de utilização prática e imediata, ainda existem algumas questões técnicas”, afirmou Jon Hennebold, chefe da divisão de ciência reprodutiva e desenvolvimento no Centro Nacional de Pesquisa Primata em Oregon, nos EUA, que não participou do trabalho. “A taxa de gravidez e a taxa de natalidade não estão em um nível que permite que isso seja feito em grande escala. Você também teria que ter experiência em tecnologias de reprodução assistida, fisiologia reprodutiva e uma grande coorte de doadores, fatores limitantes com a tecnologia atual”. [ScientificAmerican, LiveScience]

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