Morar junto causa mais divórcios? Novo estudo desmistifica a questão

Por , em 12.03.2014

Toalha molhada em cima da cama. Calcinha pendurada no box do banheiro. Tubo da pasta de dentes apertado pela metade. Meias jogadas no sofá da sala. Assento do vaso sanitário levantado.

As pequenas brigas cotidianas que estressam a maioria dos casais são conhecidas de todo mundo. Reza a lenda que esse estresse diário é o que condena tantos relacionamentos à ruína.

Assim sendo, ficaria simples responder à pergunta “Como evitar o divórcio?”. Durante anos, o conselho padrão tem sido o de esperar para se casar antes de morar junto, graças aos estudos que mostram uma ligação entre dividir o mesmo teto antes do casamento e o divórcio.

Porém, este conselho – que poucos têm seguido – está prestes a entrar em colapso. Uma nova pesquisa descobriu que a coabitação antes do casamento não está de forma alguma relacionada com o divórcio.

Em um novo documento informativo preparado para o Conselho de Famílias Contemporâneas (EUA), Arielle Kuperberg, uma socióloga da Universidade da Carolina do Norte, descobriu que, quando se leva em conta a idade em que decidiram morar juntos, não há nenhuma diferença nas taxas de divórcio entre os que se mudaram antes ou depois do casamento.

“A coabitação não causa divórcio – eba!”, disse Kuperberg, acrescentando a exclamação porque cerca de dois terços dos novos casamentos nos Estados Unidos começam com a coabitação.

Dividindo uma casa

Enquanto a coabitação é muito popular, uma pesquisa que remonta à década de 1970 sugere que as relações não oficiais não são tão sólidas quanto aquelas que vêm equipadas com alianças e juízes de paz. Os cientistas têm tentado explicar a descoberta de várias maneiras, sugerindo que os casais que moram juntos talvez optassem pelo casamento pelas razões erradas e, assim, mais tarde, acabariam no divórcio. Outra hipótese era de que aqueles que moravam juntos antes de oficializar a união mantinham mentalmente suas opções em aberto e não apoiavam um ao outro tão fortemente como os casados legalmente.

A pesquisadora utilizou dados da Pesquisa Nacional de Crescimento Familiar, uma pesquisa representativa realizada pelo governo dos EUA e, com dados das versões da pesquisa de 1995, 2002 e 2006, ela reuniu informações sobre mais de 7 mil pessoas que tinham sido casadas ​​pelo menos uma vez, incluindo a data em que passaram a morar juntos, e quando e se essas pessoas se divorciaram.

Estudos anteriores compararam as taxas de casais que se divorciaram e coabitaram antes do casamento com aqueles que não o fizeram usando o tempo de casados. Kuperberg fez algo novo: comparou as relações usando a data em que passaram a morar juntos pela primeira vez. Essa data, ela fundamenta, é quando um casal realmente assume os papéis do casamento, independentemente de terem ou não um certificado legal.

Usando este método, ela não encontrou nenhuma ligação entre saber se as pessoas tinham coabitado antes do casamento e sua taxa de divórcio. O marco na idade para a escolha de um parceiro de vida parece ser próximo dos 23 anos, afirmou. “É aí que as pessoas são capazes de escolher um parceiro que é mais compatível”, explica. “Talvez eles sejam um pouco mais maduros. Eles estão um pouco mais organizados no mundo”.

Vale notar que o momento parece coincidir com a formatura da faculdade. Mudar-se com alguém antes de ambas as pessoas terem definido suas carreiras e terem uma escolaridade substancial pode aumentar o risco de que alguém decida aceitar um emprego em São Paulo, enquanto o outro quer ir para a faculdade no Rio de Janeiro.

Coabitação bem-sucedida

Outra pesquisa incluída no relatório concluiu que morar junto pode ser bom, mas apressar as coisas pode ter desvantagens. Sharon Sassler, socióloga da Universidade de Cornell, na Califórnia, entrevistou mais de 150 coabitantes para um livro em que está trabalhando. Ela descobriu que a maioria daqueles com diplomas universitários vão morar juntos só depois de um longo período de namoro. Mais da metade eram casais há mais de um ano, com uma média de 14 meses de namoro antes de juntarem as escovas de dentes. Por outro lado, mais da metade daqueles sem diplomas universitários vão morar juntos depois de menos de seis meses de namoro.

“Necessidade financeira parece empurrar os que são menos bem-sucedidos em suas carreiras para dividir um apartamento com seus companheiros antes de estarem prontos”, escreveu Sassler em um comentário que acompanha a nova pesquisa de Kuperberg.

“Saber mais sobre como as relações são formadas e como elas se desenvolvem – como quanto tempo os casais estão envolvidos romanticamente antes de morar juntos – pode nos ajudar a fazer melhores previsões sobre as chances de que um relacionamento vá se dissolver, quer antes do casamento ou depois dele”, continua Sassler.

A historiadora da Universidade Estadual Evergreen em Washington e diretora de educação pública no Conselho de Famílias Contemporâneas, Stephanie Coontz, acredita que as descobertas de Sharon são interessantes. Na década de 1950, o “período de perigo” de seis meses descoberto por Sassler era, de fato, a norma. O jovem médio norte-americano namorava apenas seis meses antes de se casar.

Naquela época, no entanto, o casamento era algo mais “café com leite”, conta Coontz. Os homens tinham seu papel (prover o financeiro) e as mulheres tinham o delas (cuidado familiar e doméstico). Agora, o casamento é individual e requer uma negociação única para cada casal. “Você precisa de muito mais maturidade e habilidade de negociação”, afirma a historiadora.

A pesquisa é complicada pelo fato de que as pessoas que moram juntas antes do casamento e aquelas que não o fazem estão em constante mudança. O primeiro grupo de coabitantes na década de 1960 era formado pelos mais educados e, provavelmente, mais propensos a conflitos, dada a sua vontade de desprezar as convenções sociais. Hoje, as pessoas mais bem educadas são as menos propensas a tomar a decisão de dividir o teto com o namorado, provavelmente porque eles enfrentam menos pressões financeiras do que os menos instruídos.

“Podemos estar vendo todo um novo desenvolvimento dinâmico”, reflete Coontz. “Essa é a parte divertida de estudar o casamento e a família agora. Nós estamos perseguindo um alvo em movimento”, conclui. [Live Science, Daily Mail]

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