O queijo mais velho do mundo, encontrado em antiga tumba egípcia, também era muito perigoso

Por , em 18.08.2018

Seres humanos produzem e consomem queijo há muito tempo, como atesta a recente descoberta de um pedaço desse alimento delicioso de 3.200 anos, em uma tumba egípcia.

Por mais gostoso que o queijo pudesse ter sido, no entanto, também era uma potencial fonte de doença.

Composição

Este é provavelmente o mais antigo resíduo sólido arqueológico de queijo já encontrado.

Datado do século 13 aC, a “massa esbranquiçada” foi descoberta dentro de um jarro.

Apesar de 30 séculos de exposição a condições severas do deserto, o composto reteve o suficiente de seu conteúdo químico original para os cientistas estudarem suas origens.

Além de determinar o tipo de leite animal usado para fabricar o queijo, os pesquisadores também detectaram traços de uma bactéria perigosa que nos atormenta até hoje.

A tumba

O túmulo que continha o pote de queijo foi descoberto em 1885, mas logo foi esquecido e subsequentemente perdido depois que areias saarianas soterraram o sítio arqueológico.

Em 2010, o local foi reexaminado por pesquisadores franceses. Ladrões de túmulos já haviam saqueado a tumba, mas diversos potes de cerâmica foram deixados para trás.

O jarro contendo o queijo antigo foi enterrado ao lado de Ptahmes, antigo governante da cidade egípcia de Memphis, a capital do Baixo Egito na época.

O sítio arqueológico remonta à XIX dinastia egípcia, que governou a região de 1292 a 1189 aC. Como figura política, Ptahmes era importante. Além de seus deveres como “prefeito” de Memphis, era chefe militar do estado-maior e supervisionava o tesouro da cidade. Após sua morte, seu status foi elevado a Sumo Sacerdote do deus Amon, uma antiga divindade egípcia.

Conforme aponta o novo estudo, Ptahmes também pode ter tido uma queda por queijo.

A análise

Quase 33 séculos de exposição ao ambiente altamente alcalino do deserto alteraram a natureza química da amostra, particularmente seu conteúdo graxo, o que dificultou a análise do alimento.

Para estudar o queijo, a equipe liderada por Enrico Greco, da Universidade de Catania (Itália), precisou conceber uma maneira nova de examinar proteínas e identificar marcadores peptídicos (cadeias curtas de aminoácidos que sinalizam a presença de substâncias específicas).

Depois de dissolver pedaços da massa branca, a equipe de Greco isolou e purificou pequenas porções de proteína. As proteínas foram cuidadosamente analisadas usando espectrometria de massa e cromatografia líquida.

No final das contas, os pesquisadores conseguiram identificar a substância com segurança como um tipo de queijo sólido.

Gostoso e perigoso

Os cientistas concluíram que o alimento lácteo foi produzido a partir de uma mistura de leite de cabra, de ovelha e, estranhamente, de búfalo-africano – uma espécie não tipicamente associada a animais domésticos mantidos e ordenhados na África moderna.

A análise do pano encontrado em cima do queijo mostrou que o material era bom para manter substâncias sólidas, não líquidas. A lona era provavelmente utilizada para cobrir o queijo ou, possivelmente, o topo do frasco onde se encontrava.

Os pesquisadores também encontraram marcadores peptídicos consistentes com Brucella melitensis, uma bactéria que causa uma condição chamada de brucelose. Não surpreendentemente, este queijo não era pasteurizado, o que o torna uma comida potencialmente perigosa.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, a maneira mais comum de ser infectado com Brucella melitensis é através do consumo laticínios não pasteurizados/crus. Quando ovelhas, cabras, vacas ou camelos são infectados, o leite fica contaminado com a bactéria e, se não for pasteurizado, ela pode ser transmitida para pessoas.

Quanto ao sabor e textura do queijo, ele teria uma consistência semelhante à do chèvre (queijo francês feito com leite de cabra), mas com um toque ácido. Também seria úmido.

Brucelose

A brucelose normalmente não é fatal, mas é desagradável. Sintomas incluem febre, suores noturnos, mal-estar e dores musculares, com potenciais problemas de saúde a longo prazo como artrite, inchaço dos testículos, fadiga crônica e endocardite.

Evidências arqueológicas já mostraram que os antigos egípcios não eram estranhos à brucelose. A descoberta recente fornece mais uma prova da presença deste tipo de infecção, e seus meios de transmissão através de queijo contaminado, durante este período.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Analytical Chemistry. [Gizmodo]

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