Origem de misteriosa nuvem radioativa de 2017 é descoberta: acidente nuclear secreto na Rússia

Por , em 30.07.2019

Uma equipe internacional de cientistas chegou à conclusão de que a enorme nuvem de radiação que se espalhou pela Europa e pelo mundo em 2017 teve origem em um acidente na instalação nuclear Mayak Production Association, na região das Montanhas Urais da Rússia.

Enquanto a Rússia confirmou a detecção de tal nuvem sob a região, nunca admitiu qualquer responsabilidade pelo vazamento de radiação.

A radioatividade alcançou diversas regiões, incluindo a Europa Central e Oriental, a Ásia, a Península Arábica e até o Caribe.

Traçando até Mayak

Os cientistas identificaram rutênio radioativo-106, um subproduto da fissão nuclear com uma meia-vida de 374 dias, na nuvem. Daí veio a desconfiança de que a instalação de Mayak era a responsável pelo vazamento, ocorrido em algum momento entre 26 e 27 de setembro de 2017.

De acordo com o principal autor do estudo, o químico nuclear Georg Steinhauser da Universidade Leibniz (Alemanha), mais de 1.300 medições atmosféricas feitas em todo o mundo mostraram que entre 250 e 400 terabecquerels de rutênio radioativo-106 foram liberados durante esse tempo.

O isótopo é produzido como subproduto da fissão nuclear de urânio-235. Durante o reprocessamento do combustível nuclear, o rutênio colateral gerado é tipicamente separado e colocado em um armazenamento de longo prazo.

Isso significa que qualquer grande vazamento de rutênio só pode ir de uma instalação que faz reprocessamento de combustível nuclear, e Mayak é um dos poucos lugares do mundo que se encaixa nesses quesitos.

Estudos meteorológicos precisos confirmaram essa hipótese. “Um trabalho muito preciso foi feito e Mayak foi apontada como a fonte — não há dúvidas sobre isso”, afirmou Steinhauser ao Live Science.

Acidente secreto?

A nuvem de radiação foi diluída o suficiente para não causar danos à população. De qualquer forma, a radioatividade total ficou entre 30 a 100 vezes o nível liberado pelo acidente de Fukushima em 2011.

E este sequer é o primeiro acidente envolvendo a instalação Mayak. Houve outro em 1957, que causou um dos maiores vazamentos de radiação na história da região.

Conhecido como “desastre de Kyshtym”, o incidente foi causado pela explosão de um tanque de resíduo nuclear líquido e levou a uma pluma de fumaça que percorreu centenas de quilômetros.

Da mesma forma, o estudo atual indica que o acidente de 2017 não deve ter sido causado por um simples vazamento de gás, mas sim por uma explosão ou incêndio, que provavelmente expôs os trabalhadores da instalação a condições radioativas perigosas.

Responsabilidade

A Rússia chegou a conduzir uma investigação sobre a nuvem, mas não assumiu qualquer responsabilidade pelo incidente. A comissão russa montada para estudar o vazamento chegou à conclusão de que não havia evidência suficiente para determinar que Mayak era a origem da radioatividade.

Steinhauser e seus colegas esperam que o país reveja sua posição após terem conhecimento dos dados de sua nova pesquisa. Eles também gostariam de ter acesso às informações coletadas pelos russos.

Qualquer informação seria de grande ajuda para evitarmos catástrofes semelhantes ou piores no futuro. “É nosso encargo estudar esse acidente. Não é sobre culpar a Rússia, é sobre aprender nossas lições”, disse Steinhauser.

Um artigo sobre o estudo foi publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences. [LiveScience]

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