“Turismo suicida” trouxe mais de 600 pessoas à Suíça nos últimos anos

Por , em 25.08.2014

A lei sobre suicídio assistido na Suíça não é a coisa mais clara do mundo. Por conta disso, muitas pessoas aproveitam essa brecha para viajar à Zurique com o único propósito de cometer suicídio. Esse é o chamado “turismo do suicídio” e, coerentemente, essas pessoas recebem o nome de “turistas suicidas”.

Além do problema óbvio de que a rotatividade desse tipo de turista não é a mais alta – afinal, quem vai não costuma voltar -, alguns dados coletados nos últimos anos têm chamado atenção. Entre 2008 e 2012, 611 “turistas” foram para a Suíça para cometer suicídio assistido, segundo uma análise publicada. Eles chegaram de 31 países diferentes, embora a grande maioria fosse proveniente da Alemanha e do Reino Unido.

Essa prática se tornou comum a ponto de o termo “ir para a Suíça” ter se transformado em um eufemismo para “suicídio assistido” no Reino Unido. Uma daquelas expressões populares que, daqui alguns anos, a gente vai ter que pesquisar um pouco para saber de onde veio.

O mais chocante de tudo é que seis organizações diferentes ajudam as pessoas a cumprir esse propósito. Elas “promovem” cerca de 600 casos de suicídio por ano, sendo que, desses, 200 são de turistas suicidas. Será que esse é um exemplo de economia criativa?

Suicídio assistido se transforma em turismo

Dos 611 suicídios assistidos identificados durante o período em que esses dados foram levantados, 58% eram de mulheres. A idade variou de 23 a 97 anos, e os pesquisadores responsáveis pelo levantamento descobriram que a idade média foi de 69. Outro dado chama muita atenção: algo em torno de 50% dos pacientes tinham alguma doença neurológica. Outros disseram que tinham câncer, doença reumática ou doença cardiovascular. Muitos tinham mais de uma dessas condições.

O número total de casos de turismo de suicídio caiu de 123 em 2008 para 86 em 2009, mas em seguida dobrou entre 2009 e 2012, indo para 172 – o que só aumentou a polêmica em torno do assunto.

As leis de suicídio assistido em todo o mundo estão em debate de prós e os contras para permitir que os médicos ajudem doentes terminais, ou pacientes que sentem muita dor, a morrer.

Na Suíça, de acordo com autores responsáveis pelo levantamento de todos esses dados, não há regras para regular as condições em que uma pessoa pode receber o suicídio assistido, embora os códigos profissionais médicos o permitam em determinadas circunstâncias. Na Alemanha, por exemplo, não há linguagem jurídica formal no código penal sobre o suicídio assistido, mas os médicos não são eticamente permitidos a ajudar um paciente a cometer suicídio.

No Reino Unido, Irlanda e França, o suicídio assistido também é ilegal, apesar de casos recentes terem sido apresentados em tribunais superiores.

Uma pesquisa internacional com 12 países europeus concluiu que a maioria das pessoas é a favor da legalização do suicídio assistido, de acordo com os autores desse levantamento. Mas outros argumentam que legalizar o suicídio assistido não é uma medida que aborda o problema central da questão, que é a necessidade de melhorar cuidados paliativos. Além disso, quem é contra levanta uma outra questão: as leis de suicídio assistido, caso aprovassem a prática, colocariam populações vulneráveis em risco.

Alison Twycross, da London South Bank University, na Inglaterra, em um editorial que acompanha esse levantamento, escreveu que os defensores do suicídio assistido muitas vezes têm um amigo ou parente que sofreu uma morte longa e dolorosa. Assim, a questão pode realmente ser a necessidade de prestar um bom atendimento de fim de vida de todo e qualquer paciente. [CNN]

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2 comentários

  • Cesar Grossmann:

    Sou a favor da pessoa ter a escolha e a oportunidade de morrer de forma digna. E se acabar em uma cama, com ou sem dores, ligado a máquinas que apenas lhe prolongam a vida, sem a mínima qualidade de vida, a meu ver não é “morrer de forma digna”.

    • Guilherme Tsiftzoglou:

      Concordo plenamente com o Cesar Grossmann e gostaria de acrescentar que não apenas moribundos deveriam ter tal direito, eu não quero morrer, mas não posso privar uma pessoa de tal direito. Somos donos de nossas vidas e devemos fazer com ela o que bem queremos, com tanto que não afete diretamente terceiros. Acredito que apenas um exame psicológico e psiquiátrico seriam o suficiente como critério para alguém saudável poder solicitar tal procedimento.

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